quinta-feira, 23 de abril de 2009

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Variação onírico-automática sobre o romance No Silêncio de Deus de Patrícia Reis



E então à tardinha fui parar a uma coffeeshop perto da Leidseplein e fiquei lá a beber um Chocomel. Grandes nuvens de fumo saíam de todos os lados. Pequenas fábricas de eternidade passavam os vulcões pulmonares e projectavam-se no vazio da sala fechada pelo tecto. Pedi uma abrótea com maionese de toranja. As pessoas que não conversavam faziam puzzles ou liam o jornal. Fui ao balcão e a meio a abrótea fugiu pela porta fora. Quando voltei estava sentada na mesa a escritora Patrícia Reis com uma ampulheta na mão. Tinha uma cara linda e podia sem custo fumar á chuva. Lá fora o duro padrão do céu augurava uma crucificação à Gauguin. Num pé a escritora tinha um soco holandês e no outro uma sandália árabe. Estava acompanhada por um cogumelo e um homem mais velho: Boa noite, sou o senhor Ayahuasca- apresentou-se ele. Foram vocês que assustaram a abrótea. – Não, respondeu ela com a elegância egoísta das beldades. Resolvemos ocupar a mesa antes que a maionese fugisse concluiu a escritora.

Todo o cenário desaparece e fico sozinho com Patrícia Reis. Entro em automático.

No livro tudo me faz lembrar a sequência da plantação francesa no Apocalipse Now. Os personagens parecem fantasmas ou zombies ou golems. A prostituta não está calibrada á medida do escritor. A jornalista, que teima em não sarar migra como um pequeno almoço de mesa em mesa como uma alma danada num banquete de bruxas. O romance tem um alvo específico, mas na sua construção age como um sniper oportunista. A maravilha do mundo são as pequenas confusões, as enguias eléctricas e aleatórias da natureza humana. A abrotea e a maionese de toranja são um acto falhado relativo ao efeito madeleine de Proust, o rateiro.

Patrícia Reis dá uma risada e responde - desculpe mas o meu nome é Cirano de Bergerac.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Susan Boyle (beije-a, Mr. King)



Elegante como um peru de Natal, afrontou com bravura centenas de pessoas que começaram por se rir de forma vil e abundante. Quando daquele corpo original lhe fugiu a voz, estarreceu e comoveu . Não é que venha daqui a paz ao mundo mas é um violento pontapé nas partes dos bonitinhos deste mundo extremamente feio. Solteira, nunca beijada, sozinha em casa e desempregada com um gato. E de repente vai ao Larry King. Tenho uma dúvida, no entanto, será que ela cantará pior ou melhor depois de ser beijada? De qualquer forma espero que tenha um bom primeiro beijo uma vez que esperou tanto tempo. Ou então ser beijada pelo próprio Larry King simbolicamente. Isso seria lindo e de extremo mau gosto como todas as coisas belas.

domingo, 19 de abril de 2009

Pele de mámore


Bom dia blog.

Espreito-te mas não falo contigo vai para um ano.

Foi tudo tão rápido; o curso, os escursionistas, tão deliciosamente diferentes entre si, o Mário Cláudio, as casas de banho em mármore, o jantar, as possibilidades; depois, a realidade. Tive saudades, admito.


Farto-me de viajar e no entanto não saio do sítio.

O mesmo clima pós aquecimento global. A mesma cidade invicta, vencida. O mesmo escandaloso contraste entre o que podia ser e o que é. O mesmo desânimo nas paredes, nos bichos e nos homens. Ainda a tua agenda quotidiana, a minha urgência. Que se foda a tua agenda quotidiana. Eu vou mas é tentar salvar a pele agora que não a tenho. Eu vou mas é fazer a barba.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Parkour Fúnebre



POR ENTRE OS MÁRMORES

O portão está aberto, entra. Sobe as primeiras escadas,
Um curto lanço, dois pequenos degraus. Segue depois pelo
carreiro de terra batida, apenas alguns passos até olhares
à esquerda, caminhares por entre os mármores. Desvia-te


das flores, não pises as vassouras que as viúvas deixam de
sábado a sábado. Vira agora para a direita e olha. Vê bem o retrato
a sépia pousado ao vento, debruça-te sobre a campa, reza.
E deixa-te com as flores, o portão sempre fechado.

Biologia do Homem, Jorge Reis-Sá, ed. Quasi, 2004


Em Por Entre os Mármores Reis-Sá ensaia a primeira tentativa do que eu chamo o poema-parkour ou se preferirem o poema –orientação. Outros nomes para este poema avançado seriam por exemplo Parkour Enérgico do Cangalheiro Saltitante ou ainda Parkour de Finados. Em poucas palavras, o exercício físico mistura-se com um revivalismo fúnebre. No próximo post debruçar-me-ei sobre o enigmático poema Dharma & Greg.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Avariação a Jorge-Reis-Sá


PELA MANHÃ O PÃO

Pela manhã o pão ou as bolachas com o leite
fundas na chávena. Tu e o jornal no
alçado, um trago de sumo sempre que
te via os passos, como se corresse, te seguisse.

O jornal ainda está na pasta como o deixaste
uma última vez, já os óculos o acompanham.

Mas o pão ainda se encontra à entrada da boca.

Biologia do Homem, Jorge-Reis-Sá, ed. Quasi, 2004


PELA MANHA O MOLETE

Pela manha o molete ou as cookies com o bagaço
sopas na xícara. Tu e o papagaio
á tiracolo, um sorver da zurrapa sempre que
te via a púbis, como se corresse, tece-me os guizos.

O papagaio ainda está empastado como o deixaste
uma penúltima vez, já as lunetas vão atrás dele.

Mas o molete ainda se encontra à entrada da boca
(e assim não tenho sítio para meter isto!)

Biologia do Cro-Magnon, Alien Taco, 2009

Na senda dos aprendizes do Renascimento ousei imitar um poeta Jorge –Reis Sá, aproveitando a maneira subtil como ele carameliza as palavras para redigir uma variação bruta e simplista que representa apenas o os meus sentimentos pueris e as idiossincrasias do meu humilde e profano dia-a-dia .Comecei a ler a Biologia do Homem e logo aos primeiros poemas me apercebi estar perante uma coisa fora do vulgar. Os poemas são tão maus que é minha convicção que este, o poeta, não reconheceria um bom poema mesmo que ele aparecesse vestido de poema com um letreiro a dizer sou um poema e a seguir o mordesse numa nalga. Estou com curiosidade de conhecer este poeta invulgarmente mau. E dar um abraço merecido porque eu tal como ele tenho instintos anti-poéticos, embora, felizmente para toda a gente, eu não escreva poesia. Todavia fiquei tocado por este livro porque em termos técnicos e viscerais é do pior que tenho lido. O poema Pela Manha o Molete é o corolário dessa experiência poético tenebrosa proporcionada pelo poeta Jorge Reis-Sá.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Se estiverem por aí


Escrevi e interpreto o espectáculo que terá a sua estreia amanhã dia 27 de Março - Dia Mundial do Teatro.
Muito do que pude fruir no atelier de escrita dos Sentidos, vem desaguar a este projecto.
Se estiverem por aí, se acharem que vale a pena, venham até á Póvoa de Varzim, eu estarei por aqui para vos dar a beber este momento.

sexta-feira, 20 de março de 2009

segunda-feira, 16 de março de 2009

Nick Hick



Swamp People

For those who dwell in the swamp
There will be nothing but wheels
Wheels of shitty misfortune and flesh eating lotus
Tiny figures in the fast track
Lost soldiers turning their tongs
Sober garments stained by hunger.

Nicholas Hick

Nicholas Hick – Nasceu na Tasmânia em 1961. Cruzei-me com ele no sétimo encontro dos Criadores Invisíveis realizado em Torresmos de Latrão. Este poema pertence a um dos seus primeiros livros: Dundee Dandy. O mote de Nick Hick é “a existência é o que é, embora não exista.”

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Lago de canja selvagem



Ingredientes

Uma floresta com patos e gansos e lebres
Um pequeno lago sem peixes
Massinha de canja
Ervas aromáticas
Tom Jones ou Motorhead

Derrubam-se as árvores e colocam-se em gigantescas fogueiras para aquecerem caçoilas de cobre. Matam-se todos os patos e gansos e lebres da floresta. Tira-se toda a água do lago e distribui-se pelos cozedouros. Os animais esfolados e depenados põem-se a ferver para soltarem a sua gordurinha. Juntam-se as massinhas. Quando estiverem cozidos adicionam-se as ervas silvestres. No fim de saciados os convivas, seguir-se-á um concerto de Tom Jones ou Motorhead.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Manifesto Estúpido



1- Toda a realidade é uma construção. O real nunca se esboroa. É como uma lampreia a sugar o clítoris da vida: o minete eterno.
2- A doença da civilização é a procura dum significado total que não existe e provavelmente nunca existiu.
3- O melhor da vida é respirar. Já o pior é o seu inverso.
4- Quando um cão saliva ao ouvir uma campainha, quando o elefante toca o sino, isso quer dizer que tanto o cão como o elefante estão aptos a escrever.
5- Os papagaios não sabem o que dizem , mas não aprendem sozinhos.
6- Deixar cair as cuecas pode ser um risco: existem espécies marotas que gostam de sítios quentes e húmidos.
7- O autor deste manifesto está muito longe da realidade. Por não saber onde está remete-o a si leitor(a) para o primeiro artigo.



Nota: como tpc levarei uma receita de arroz de lampreia que está na minha família desde a Idade do Bronze.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um Mundo Catita - As minhas coisas favoritas

O sweet and pretty speaking eyes,
where Venus, love, and pleasure lies.
Petronius (roman smart fucker)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Natal? Manuel Sérgio

Porque só agora li o desafio, fui procurar um poema que decorei na escola com nove anos e do qual ainda me lembrava em parte.

Natal?


Enquanto a chuva

Escorrer da minha vidraça

E furar o telhado

Daquele farrapo de homem que além passa

Enquanto o pão

Não entrar com a Justiça

Lado a lado

Mão a mão

Nem Jesus vem

Andar pelos caminhos onde os outros vão

Um dia

Quando for Natal

(E já não for Dezembro)

E o mundo for o espaço

Onde cabe

Um só abraço

Então

Jesus virá

E será

À flor de tudo

O RedentorUniversal

(Quando o Homem quiser

Será Natal)

Manuel Sérgio

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

À procura do tempo fodido



Humilhação pré-puberdade

Eu devia ter á volta de oito anos. Andava em folias com o resto dos miúdos no pátio da escola. Estávamos a jogar ás escondidas. Procurei esconder-me atrás duma porta que dava acesso a uma casa de banho decrépita que na altura se encontrava em obras. Infelizmente não fui o único a procurar refúgio na recatada cagadeira que ficava por detrás da porta meia coberta por uma bela buganvília. Pedro, o Bucha, um rapaz com problemas de peso tinha escolhido esconder-se lá tal como eu. As carnes fartas do Bucha em plena correria empurraram a porta e fizeram-me aterrar na sanita onde fiquei preso. O Bucha ao reparar que eu e a retrete éramos agora uma unidade correu por ajuda. Por esta altura, enterrado na cerâmica comecei a vislumbrar os olhinhos dos outros miúdos como penas de pavão incrustadas na ramagem da buganvília. Estavam entre o riso e a surpresa num ambiente de pré-galhofa generalizada. Veio uma freira que me passou uma mão pela cabeça e passado um bocado voltou com um brutamontes que desfez com um maço o enlace carne-loiça. Encaixei dois cortes no cu e um ódio aturdido pelo Bucha. No entanto se posso apontar o pináculo da humilhação foi passar, meio a mancar pela turba ululante com as calças ensanguentadas e restos de merda que datavam de antes das obras. Enquanto carregava o meu pequeno e fétido corpo pelo pátio compreendi, e lembro-me disso distintamente, compreendi que teria sido muito pior se tivesse caído de queixo ou enfiado lá a cabeça. Outros teriam provavelmente tirado ilações sobre o universo. Eu não, eu estava só na merda.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Ilha dos Corações Partidos - A Outra Parte

Tinha ficado três dias e três noites sentada junto às marés. recebia a água na ponta dos dedos dos pés como alimento. Sempre fora persistente, e também esquiva às tarefas diárias impostas pelos ilhéus. Recebia a água e vertia os olhos na imensidão, certa de que o momento estava para chegar. Na sua curta vida aquela era a única praia que conhecia, tinha nascido ali, guardava no peito a herança de todos os ilhéu, um coração que mal brotara, já de si vinha despedaçado. Suspirava junto às árvores, e sonhava... como sonhava!... Sempre o mesmo e colorido sonho, a de um homem só com um olho, de mãos macias e rosto encovado, que por entre os rochedos, por entre as águas e por entre a multidão chegava finalmente à ilha para colar todos os pedaços da sua herança despedaçada.
Ao fim dos três dias, avista ao longe a multidão que se agita. Surgira da bruma o rosto mais belo que alguma vez vira. Ao fim de algum tempo, o rosto e o seu corpo de homem afastam-se da multidão, caminhando para ela. O seu coração fragmentado sentiu-se a tremer, e as suas pernas receberam ordem de despejo. Correu a esconder-se no mato. Deixou que os olhos não perdessem a figura de vista, bebeu-lhe o corpo, bebeu-lhe o passo, bebeu-lhe o olho, aquele único e grande, que os seus sonhos lhe tinham mostrado entre bocejos e suspiros.
Ali se deixou, tremendo e chorando por esse sonho acontecido.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Ilha dos corações partidos III

A maré começou a vazar retirando o manto marinho ao homem no cimo da rocha. O zarolho ziguezagueou fausto de exausto e os locais apressaram-se a trazê-lo para a caverna. Era um grande buraco na rocha na linha da praia com a selva que lhes dava abrigo. Trouxeram-no para cima de uma fogueira e deram-lhe porco com ananás numa folha de árvore. Depois do repasto houve muita galhofa e até algum despudor quando os locais, numa brincadeira de crianças grandes, tentavam acertar sucessivamente com puré de raízes no buraco onde havia habitado o olho do zarolho. No fim o visitante e o que parecia ser o líder da comunidade, um velhote, deslocaram-se para aliviarem a tripa e segundo o velho para fortalecer a terra das ilhas.
- Cagamos sempre aqui. Cada um tem a sua área e assim ajuda-se o lustroso solo. O zarolho acenou. Depois voltaram. Na caverna já todos tinham adormecido, mas o zarolho e o velho continuaram a conversar.
- As portas para o lado de lá fecharam-se. Não há mais ninguém. – Confessou o homem ao velho sem ponta de emoção.
- Bem, então precisas de um sítio para te instalares. Escolhe um pedaço da caverna e depois veremos para que tens jeito.
- Não pretendo ficar. Quero seguir pela selva até ao Pico dos Três Vértices e encontrar as mulheres do Milho Estoirado.
- As mulheres do alto não gostam de companhia – Retorquiu o velho.
- Nem eu. Procuro só uma delas. Sonhei com ela quando estava no outro lado. Tem uma carinha linda e olhos grandes e azuis. Além disso pula e dança. Eu chamo-lhe Cintilante Luz Que Brilha Sem Cessar Na Única Pupila do Meu Olhar.
- É um nome um bocado grande – Disse o velho, jocoso.
- É uma grande mulher – Retorquiu o zarolho.
- E se ela não sonhou contigo? – Perguntou o velho.
- Bem, nesse caso volto para junto de vocês e mais dia, menos dia quando a maré estiver cheia deito-me na rocha em vez de me sentar.
A fogueira estava a apagar-se e o ancião levou o visitante a um recanto de pedra e convidou-o a repousar. O zarolho fechou o olho e adormeceu. O velhote esgueirou-se para o seu canto da caverna e fez vibrar uma rabeca enquanto entoava uma frase vezes sem conta.

sábado, 22 de novembro de 2008

Theme song to Fantasy Island

este sonzinho fica aqui até eu decidir o que fazer ao zarolho (lol). Redonda obrigado pelas tuas palavras e quando quiseres reentrar fá-lo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Ilha dos corações partidos II

A multidão vislumbrou a figura que emergia da bruma pouco antes de o abraçar. Estava coberto de cal branco, o que parecia ser sangue seco e areia. Tinha ornamentações escarificadas na face. Um olho negro como o carvão contrastava com a caverna de cicatrizes onde o outro olho luzia por estar ausente.
Depois dos cumprimentos e abraços o zarolho afastou-se da multidão. Passeou pela orla da praia e foi-se sentar numa rocha a olhar para o mar. O sol já não se aguentava, estava a ser empurrado para o fundo. Entardecia e a multidão foi à sua vida. O homem levantou-se e deu um mergulho no mar, aproveitando para urinar em recato. Depois de jantarem os ilhéus vieram para perto do zarolho que continuava pesado como uma estátua em cima da pedra. A maré estava a subir, sentaram-se numa fila paralela às últimas areias lodosas. À medida que a maré subia a figura do zarolho ficava mais tapada e bastante mais lúdica para os locais que nunca tinham visto nada assim.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A ilha dos corações partidos

Há muitos anos atrás, quando a natureza confiava no homem e facilmente lhe oferecia abrigo e comida, todos apenas se ocupavam na tarefa de ser felizes. Alguns seguiam os seus próprios prazeres, outros resolviam apaixonar-se e viver em função de um outro que podia ser o mesmo ou variar simultânea ou sucessivamente. Havia no entanto uns poucos que afirmavam ter o coração despedaçado. Numa languidez e melancolia pecaminosa ou numa intranquilidade nervosa aborreciam os demais que não os compreendiam. Não percebiam porque não seguiam o seu exemplo e ao invés criavam problemas que não existiam. Foi então resolvido que esses poucos deveriam ser exilados numa ilha que não ficava longe, mas cujo acesso difícil era somente possível em alguns dias do ano, quando o vento acalmava e a maré subia, permitindo que os pequenos barcos que lá tentavam ir, não se despedaçassem nos rochedos. Dito e feito, mal era observado o problema e depois de deixarem passar uns poucos dias para terem a certeza que estava em causa o mal condenado e não uma dor de barriga, eram remetidos para a ilha, sem apelo nem agravo. Esta até então desabitada passou a ser conhecida pela Ilha dos corações partidos. Enquanto as condições não o permitiam, eram os futuros exilados confinados num campo limitado para o seu mal não se propagar ou contagiar qualquer incauto. Ora, não obstante todos os cuidados, o número de afectados aumentava de dia para dia e alguns até pareciam ansiar pela condenação ao exílio. Entre os imunes estavam os mais velhos, mais avisados e experientes. Até que um dia repararam que entre eles já não cresciam crianças. Temeram então o pior e julgaram-se os últimos homens da terra porque os da ilha apenas poderiam ter morrido de inanição. Quando apenas restava um, meio enlouquecido pela solidão, resolveu ir até à Ilha para aí se encontrar com a sua morte. Esperou pelo vento e maré propícios e com dificuldade contornou os rochedos. Eis que quando se aproximava julgou ser vítima de uma alucinação porque ouvia risos. Quando finalmente chegou à praia foi rodeado por crianças, jovens, velhos, homens e mulheres, aparentemente nem infelizes ou felizes, contudo vivos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Bastos caracóis e o casulo Ulissiponense



Ah, caralho! Devia ter pedido um t6 agora estou aqui na província e não posso ir ás tascas com homens a sério comer caracóis e pipis a sério. Sinto-me como um cão velhadas entre flores de funerária. As saudades que eu já tinha da minha neo-realista casinha. O meu retiro de guerreiro arrematado pela soberba doutros homens que não eu. Oh, piedosa deusa da igualdade guia-me pelas barricadas do obscurantismo e dá-me uma morada com vista para o Tagus e uma tagus para a mão. E tremoços a sério com cafés com mesas a sério. Aqui na província tudo é a brincar e eu estou velho para folguedos. Quero é caracóis, que tal como eu carregam o fardo duma casa ás costas. Sim, quero caracóis verdadeiros daqueles bem anafados. Quero caracóis que têm como eu que ter um telhado para a sua carne.
Sim, sou eu: Bastos, o locatário

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Herberto Elder é Gimli (parte I)






Herberto Elder, o génio mórmon, acaba de publicar a faca não corta o logro. O genial e obscuro bardo terá na verdade feito parte do elenco do Senhor dos Anéis durante o qual foi cortando filete após filete depois de alcatra mais alcatra e até algum lombo para perfazer os poemas encarniçados da excelsa obra prima a faca não corta o logro. No deslumbrante cenário da Nova Zelândia Elder terá vislumbrado os cumes da apneia e obrado este glorioso conjunto de palavras enquanto dizia umas linhas no cenário do épico. O seu próximo divino volume de imagens e mono mania terá como título Um anão para a Eternidade.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Encontrei um texto muito especial sobre missões e sobre podermos ajudar como padrinhos (ou madrinhas) no blog de A Senhora Sócrates, aqui.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Bater no Ceguinho



A ilha de Lanzarote foi invadida por uma turba de ceguinhos. Stevie Wonder o Mr-T do A-team (que tem uma tia velhota amblíope), e milhares de cegos anónimos povoam os hotéis da pacifica ilha com toques de bengala e o ocasional poio de cão –guia. Alguns correctores cegos de Wall Street fizeram um protesto performance atirando notas de monopólio. Tudo devido á estreia do filme “Cegueira do Velhão”. Na opinião de algumas organizações de cegos americanas o filme transforma os cegos numa multidão de cegos velhacos que invadem o planeta de forma muito suculenta. Saramago que se encontra graças a Deus já recuperado duma maleita revelou-se pouco incomodado tendo dito á imprensa espanhola que Pilar del Rio teve um sonho com Jorge Luís Borges a cozinhar uma sobremesa de avelã com manga e onde o mesmo dissertou sobre bolinhas de pão e pescada cozida. Segundo Pilar isto quer dizer que tudo isto é passageiro tudo isto é fado ou na pior das hipóteses zarzuela. Saramago disse ainda que pode haver cegos estúpidos o que aqueceu os ânimos. É verdade que o argumento de peso de Saramago é de que os cegos não viram o filme. Mas o que se perfila perante os atónitos cidadãos de Lanzarote é um cerco bem ao jeito do de Lisboa tão sabiamente recordado em literatura pelo Novela da literatura. E não é piada está convocada na Catalunha uma manifestação de cegos na zona das loiças do corte inglês onde se lerão poemas pró-cegueira. As últimas noticias dizem que os Blind Boys of Alabama acabam de comprar casa ao lado da mansão do prémio Novela. Cegos do mundo uni-vos não ides ver este filme. Abaixo a alegoria!


Zé Carlos Bordalesa, invisual, enviado do Tanagrasa a Lanzarote

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

História original - Capítulo I

Queria tanto ser inédito que nunca o conseguia ser. Perdia tempos infindos a tentar criar histórias novas para se ver ultrapassado em todas as ideias. Chegava quase a parecer-lhe que um espírito maligno adivinhava o que pensava e distribuía as suas conclusões por autores voluntários. Até que um dia começou a cozinhar algo verdadeiramente novo. Para o manter absolutamente secreto permitia apenas à sua mente que o aflorasse como uma sombra. Mais do que o saber, pressentia-o. Persistia todavia o problema: como fazer para concretizar a sua criação?

(continua...)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Arsénio Villa- Patas



A espantosa velocidade da chita sobre o corpo não é a rapidez da lã. Assim como a quieta placidez duma flor não pode ser comparada a umas boas costoletas na brasa. Toda esta textura de texto serve que fim?
Nenhum. É literatura semi-automática. E porque provoca vários sentimentos sobre a chita esse tecido-animal que corre sobre os corpos e os abafa. Alguma vez comeu uma costoleta na brasa enquanto olhava para uma flor a crescer?


Boa Mesa Bom Cagar, Arsénio Villa-Patas


A escatologia não é a melhor das qualidades de Villa –Patas embora com este livro de 1997, o supracitado Boa Mesa Bom Cagar tenha surpreendido parte da comunidade gastronómica e parte da literária. Entre nós é publicado pela Lontra Rechonchuda.

domingo, 14 de setembro de 2008

best sale girl ever


Madonna é uma excelente estratega. Tudo o resto são artifícios de arte eficaz (sou um fã da arte eficaz). Ela dança e canta e provoca. Isso não é Madonna, mas a encarnação da América no mundo. A Madonna sem ter um plano mestre tinha um plano com variações como qualquer bom estratega. Vendeu a América ao mundo pelo preço que quis. O que é excelente vindo duma rapariga pobre dos subúrbios. Será que ela teve algum Magalhães?

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A múmia fala



Cara putriforme
Corpo ressequido
Simbiose de carpa com lampreia
Descende de burocratas
De fronha feia.

Sou ignóbil, seja!
Tenho um fraco por velhotas
Deixa-me da cereja
Tirar-te as catotas.

sábado, 6 de setembro de 2008

Levantado

Tenho apresentado uma certa predilecção por escritores suicidas. Não os procuro, acontece de os ler e de me agradarem, pelo que repito visitas aos seus escritos.
Séneca viveu nos primeiros anos depois de cristo, tendo-se suicidado em 65. Cartas a Lucílio é a sua obra mais conhecida. Foi concluída já na última fase da sua vida, tornando-a ainda mais interessante. É um tratado de reflexão ética e moral e um normativo teórico comportamental que reflecte o seu pensamento . Na carta 13, Séneca elogia a resiliência de Lucílio:

"Um atleta que nunca foi ferido é incapaz de afrontar o combate de ânimo alto. Só aquele que viu correr o próprio sangue, que sentiu os dentes rangerem sob os golpes, que, lançado por terra, suportou sobre o corpo o peso do adversário sem, embora abatido, nunca deixar abater o ânimo, só aquele que se ergue com mais energia de cada vez que é derrubado pode descer à arena com esperança de vencer."

domingo, 31 de agosto de 2008

Novo atelier de escrita

Já começaram as inscrições!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Um Desafio

Caros colegas

Tendo terminado o nosso atelier de escrita tenho um desafio para lhes propor.

Estou a coordenar a 1ª Edição de uma Publicação de Reflexão Cultural, de nome SUB-TEXTO.
Esta publicação já teve uma Edição em 2007, comemorativa dos 10 anos da Associação Varazim Teatro, a qual faço parte e sou fundadora.

O tema central desta Edição é: Teatro porquê? para quê? e para quem? e também haverá um destaque ao Festival E-qui-in-ócio que decorrerá em Setembro na Póvoa de Varzim.

Apesar de não ter pensado inicialmente neste desafio, penso que há muito talento entre os colegas, e porque não, uma vez que tenho na mão a possibilidade, dar uma oportunidade de publicação.

O meu desafio é o seguinte (para os que o quiserem aceitar, é claro):

Enviem-me textos curtos que achem que possam ser representados em Palco. Monólogos, Peças. Ou textos, dramáticos ou poéticos que já tenham pensado que pudessem ter uma outra dimensão: a da representação.

Dependendo do tamanho seleccionarei o máximo de textos possíveis para publicar. Pelo menos 3 garanto a publicação, sendo que estes devem ter duas páginas mais ou menos (máximo).

A Edição terá 1000 exemplares e será distribuída principalmente em locais relacionados com a prática teatral e também algumas papelarias do país.

Se quiserem colaborar penso que é um desafio e uma oportunidade.

Enviem-me as vossas propostas para: fazedoresdemundos@gmail.com ou sub-texto@varazimteatro.org

Existe também o lançamento do tema principal, ao qual aceitamos participações: podem consultar em http://blog.varazimteatro.org


Obrigada,
Joana Soares

sábado, 26 de julho de 2008

Consulta


Entrou no consultório e cumprimentou-me com um informalismo a que não estou habituado nas minhas consultas, segurando-me longamente a mão direita e dando-me, com a mão esquerda, uma pancada no ombro. Disse-me o seu nome, Portugal, explicou-me ser europeu apesar da sua tradição na relação com África e América do Sul, heranças do colonialismo, como me contou em conversa preliminar antes da nossa consulta. Disse-me também estar pouco habituado a estas modernices da psicologia, mas que vinha recomendado por um amigo, também europeu, que lhe contara maravilhas dos resultados destas conversas. Interrompeu para dizer que, ainda assim, desconfiava destes resultados, até porque este seu amigo o havia traído várias vezes há algum tempo atrás. Falou-me da restauração da independência no século XVII como o fim destas traições cobardes, e das mais recentes multinacionais que inundam os seus mercados. Ouvia-o cada vez mais longe e de forma embrulhada, enquanto se repetia e perdia em pormenores, acenei-lhe a medo pois tinha feito uma pausa e continuou, poupando-me ao embaraço.
Resolvi insistir que se recostasse na poltrona para que falássemos mais seriamente. Sentou-se então, definindo uma curva entre Sines e Évora onde se dobrava no cadeirão, a ponta de Sagres assentava no chão enquanto o cabo Espichel e Peniche pendiam fora da cadeira, como pendiam as ilhas, parasitando o restante território, fossem ilhas relativamente longínquas, como os Açores e a Madeira, fossem ilhéus próximos como as Berlengas, a Armona e o Farol. Acima na cadeira, o Minho e Trás-os-Montes não encontravam apoio de cabeça, deslizando para trás.
Começou a falar novamente, pedi-lhe que começasse pelo princípio para conseguir compreender quais os seus padecimentos, além da desordem discursiva, claro.
Falou-me dos descobrimentos, que havia sido durante séculos uma nação imperial, vá lá acreditar-se. Falou-me das cortes, dos reis absolutos e liberais, das conquistas e dos fracassos no Norte de África, para deter-se longamente sobre a ditadura mais recente, que dizia, pesadamente, continuar a limitá-lo até hoje, dizia, já com a voz embargada, ter-lhe tirado a criatividade e o fulgor de uma forma irrecuperável. Lançou-se depois, bruscamente para tempos mais próximos, para as fábricas que fecham, para as crianças que não nascem, para os rendimentos que não crescem. Rematou mais tarde com uma pergunta: - Sr. Doutor, estou deprimido, não estou? Não respondi de imediato, mas pensei que estes sintomas se enquadravam mais num quadro clínico de hipocondria, misturado com algum saudosismo evitável. Peguei num frasco de placebos, que tenho sempre à mão, e disse: - Não se preocupe, tome estes comprimidos duas vezes por dia e marque nova consulta daqui a dois meses para que conversemos melhor. Levantou-se, erguendo-se sobre o Algarve, e cumprimentou-me de uma forma mais fria do que esperava, como que desapontado por não ter concordado com o seu diagnóstico, saiu, bateu a porta para não mais voltar…


Teófilo, após pesados fracassos na psicanálise de seres humanos, e depois de ter constatado a feroz concorrência existente na psiquiatria canina, dedica-se a atender países nos seus padecimentos psicológicos. São-lhe imputados os milagres Japonês e Alemão após a 2ª grande guerra, e terá feito parte do grupo de trabalho que resolveu a “Doença” Holandesa nos anos 70.

Il doppio legame

Foi desaparecendo tudo a pouco e pouco, confessou-me Lúcia, mais calma naquela tarde. Senti-o esfumar-se diante de mim como uma névoa se esfuma.
Lúcia coçava o braço esquerdo e fazia ranger os dentes enquanto lhe transmitia palavras de conforto que tinha dificuldade em articular. Inquietei-me também, solidário, e oscilei na cadeira de uma forma calculada. Os seu olhar parecia perder-se quando interrompia o discurso, para retomar o meu quando voltava a contar-me o que sentia.
Recordo-me de quando começaram a rarear-lhe as palavras, disse-me, e de como perdeu força a sua voz, que passou a apenas murmurar na maior parte das ocasiões. Desapareceram também os olhares, cada dia mais murchos, pesados e vazios. E os gestos, que se fizeram meros acenos
Desde essa altura, sombrio, passava os dias a escrever. Eram textos que nunca me mostrou, ao contrário do que fazia tipicamente com as suas publicações, fossem literárias ou científicas. Estes textos pareciam vazar-lhe a alma, sorver-lhe os sentidos como nunca havia sucedido anteriormente.
Os mesmos textos que o salvaram da loucura, mais do que o exército russo, consumiam-lhe, em vingança, agora tudo. Penso que nunca o compreendi totalmente. A maior parte dos que o podiam compreender tinham morrido há muito, num local onde também ele estava destinado a morrer.
O sentimento de culpa irracional por ter sobrevivido sempre o perseguiu. Não lhe davam descanso, as cumplicidades e os acasos felizes desta sobrevivência e pesavam-lhe o rosto e o passo. Nos últimos dias, estas recordações injustas pareciam encurralá-lo de medo.
Encontrei-o caído nas escadas, dizem que se matou, rezo para que não tenha sido assim, seria a pior das coisas.
Trecho da minha entrevista a Lúcia Levi

Gorgotranda Duduli


As minhas sinapses estão muito desadequadas. Estão próximas da dissolução. O meu entendimento resistirá? Ou virá aquela loucura lenta, larva gorda que ameaça comer a couve do entendimento, única flor da horta da existência?



O beijo da loucura, Gorgotranda Duduli

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Um dia de sol

A delicadeza dos dias corre suada em calda pelos dias de sol. Ao mexer-me para agarrar o copo gelado as axilas inundam-se. Bebo a limonada e encosto-me para trás. Só luz como água escorre por mim. Suor luz e limonada. Estou felizmente com o meu amor, que anda pela casa de quarto em quarto a arrumar. Estufei um bocado de cabrito com ervilhas presunto e cebolas. Cheira pela casa toda. O meu bebé acordou soltando alguma bem-vinda gritaria. É a hora dele sorver dos seios da mãe a pescada com tomates e coentros que eu fiz ontem ao jantar. E mais o polvo e arroz do almoço. Levanto-me e saio da beira do sol e vou pelo corredor para o quarto onde mama o meu bebé. E lá estão os dois , mãe e filho. Dou um beijo a cada um e volto para o sol. Está um dia lindo e olho para a cidade do outro lado do rio. Ás vezes quando me encharco de sol tenho a certeza que por não pensar muito, existo melhor.

Ao poente começamos a comer aproveitando o dormitar da cria. Beijo depois de jantar. De língua para limpar resquícios de doce. Cedo virá a noite fresca e a lua. E aqui paro o texto porque o quero solar.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Chá das quatro

Pouco a pouco fora desistindo de muitas coisas que antes fazia.
Deixara de ir fazer compras ao centro da cidade. Os transportes públicos sempre cheios de pessoas de rostos fechados e impacientes e jovens desrespeitosos pareciam-lhe muito pouco seguros. Tivera sorte naquela última vez em que caíra por aquela senhora a ter ajudado. Ajudara-a a levantar-se e acompanhara-a a casa.Via-se que era uma senhora com educação. Depois com a atrapalhação não guardara dela nenhum dado, nem o nome, e não lhe pudera agradecer.
Só tivera uma entorse, mas ficara sempre mais fraca daquela perna.
Dependia mais do telefone. Da mercearia traziam-lhe o que encomendava. Não tão bem escolhido, é verdade, mas não podia ser exigente.
O que ainda continuava a manter, era o lanche de sábado com as suas velhas amigas.
Antes eram cinco, mas a Mimi tivera um ataque que a deixara para sempre de cama, até se ir de vez, há dois anos.
Fora visitá-la algumas vezes. Tinha um olhar parado e não parecia estar ali. Do lado esquerdo da boca, mal fechada, saía-lhe um fio de saliva que a filha de vez em quando limpava, enquanto comentava: "hoje ela está melhor e ficou contente por a ver". Não sabia se o dizia por si ou por ela própria. No dia do funeral parecia sobretudo cansada e com os pesâmes quase todos lhe diziam "agora a mãezinha descansou finalmente, não sofre mais". Descansaram a mãe e a filha. Depois de dois anos assim e logo a Mimi que era tão animada.
Tinham ficado as quatro, mas nem sempre vinham todas ao lanche. Chegavam pelas dezasseis, com passos curtos e fatos finos, como já não se fazem. Sentavam-se na mesa do canto à janela. A sua mesa. Se estava ocupada escolhiam a mesa mais próxima, aborrecidas com aquela contrariedade até a esquecerem com a conversa. Ocupavam os lugares pela mesma ordem, deixando vagas as cadeiras das que faltavam. Pediam chá, escolhiam bolos, punham a conversa em dia e criticavam os novos tempos. Naquelas horas voltavam a ser elas, já não senhoras idosas, mas as raparigas da mesma idade, na segurança do que conheciam umas das outras, mais confiantes numa ordem do mundo.
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Scrabble, Julho de 2007
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Scrabble, começou a publicar textos num blog em Julho de 2006. A sua identidade é desconhecida, crê-se que para ele próprio.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Ferdinando Silvestre



Deves dizer-lhe que ela sabe a atum depois de ela te dizer tens cá uma lata.
Se gostares mesmo dela compara-a com um prato qualquer tipo lagosta ou trufa (1).
As mulheres têm preconceitos estéticos em relação á comida por isso não lhe chames rojãozinho ou filete. Evita o porco e as suas analogias, soa inconveniente ao sexo fendido. Acima de tudo lembra-te que a maioria das mulheres só querem amor, atenção e nabo picante. É minha contenção que as mulheres evitam o confronto por isso segue-lhes o exemplo, tenta convencer quando te convencem e tudo ficará bem.


(1) Mulheres de pendor alternativo gostam de analogias com tofu

Amor eterno, Ferdinando Silvestre


Não conheço mais nada da obra de Silvestre a não ser este opúsculo sobre a sedução e o entendimento entre géneros. Teve uma edição de autor há uns anos.

domingo, 20 de julho de 2008

" Tardes do Tiço`s"


" Mãos sujas" carregando o peso da existência, da liberdade não desejada...
A angústia que corroía o âmago até ao limite.
Presos na densidade dos ideais que os consumiam, dos sentimentos que os sufocavam...
E o vazio... o vazio ameno das tardes, das odes ao Ian Curtis, do fumo dos charros, dos acordes da "all my colours"... a ânsia de não ser.
Procuravam a identidade na melancolia do outro, espelhavam-se na sua relutância em viver...


Maria

sexta-feira, 18 de julho de 2008

terça-feira, 15 de julho de 2008

Prédica de domingo por Alice Strudel


Prédica de Domingo

Não acreditais, ó crentes, nos benefícios da comida aquecida?
Não acreditais vós na cozinha lenta?
Sois porventura glutões da carne picada?
Gostais do ar?
Gostais do pranto microbiológico dos centros comerciais,
E do sussurro dos carros nos parques,
Depois de excitado o tímpano
No rastreio em stereo dos multiplex.


Gostais porventura do zurzir surdo
Da arrazoada dos sítios sem alma
Onde vacilamos como crianças inocentes
Sem dó nem alma.
Será essa a vossa terra da fartura
Ao domingo?

Alice Strudel


Nota de alien taco: Acho a poesia de Strudel tão estimulante como as alocuções do Padre Borga. No entanto, não pude deixar de postar este poema. Talvez por anteontem ter sido domingo. A obra não tem edição portuguesa e não consegui arranjar tradução para multiplex e stereo no poema. O porquê de eu traduzir Alice Strudel é um mistério até para mim próprio. O título em inglês do livro é Porcupine Blues.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Darcy Grey Feather


Um dia com reserva de amor


Una música de voz rouca
Na toca da quente amada
Cheiro da mata louca
Bem cavalgada bem chegada

Delírio herbal
Na casa do suor
Sórdido tribal
+Tolo de amor

Depois há noite borracheira
Seguida de cacto amargo
E suco duma amoreira
Para tirar o travo

Darcy Grey Feather, Flores ossudas


Este poema foi lido pela primeira vez num pow-wow. Foi na reserva apache da montanha branca durante um beberete ao qual Darcy chegou já um bocado tocado com tsiwin. Este livro Flores ossudas foi publicado pela Vértice Hormonal.

sábado, 5 de julho de 2008

Elvino Sacripanta


Não existe em Portugal aristocrata mais séria do que Mena Mónica. Também conhecida como A mulher que comeu Eça. Há mais Eça nos seus tornozelos e joelhos que nos livros do próprio. Dentro do tutano das suas deliciosas tíbias há toda a Sociologia. Mais acima nas coxas há só chicha , e ao chegar ao solilóquio vestal encontra-se Cesário Verde envolto em floresta ainda viçosa. Não vou mais acima para não despertar Camões nos Montes Hermínios que Mena transporta como troféus duma juventude táctil. VIVA MENA! Tudo o que ela diz enche o povo de exaltação!




Elvino Sacripanta, Viva Mena!



Elvino Sacripanta distinguiu-se com mérito no lançamento do dardo na década de oitenta. Desligado do atletismo dedica-se á ficção lançando Eu tu e um rodízio e o clássico A gaja das gravatas. Recentemente lançou a biografia não autorizada VIVA MENA! Tudo editado pelas Edições Anafadas.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Serviliana Dobler-Pyiu


A casa estava pintada de azul-cobalto por fora. Por dentro era rosa-quartzo e madeira petrificada. Dois anões de cabeças enormes e orelhas bicudas cozinhavam numa mesa onde luzia um fogão de campismo num cromado que cegava. Os três gatos comportavam-se como lémures. Os anões cirandavam enquanto coziam ovos e gemiam baixinho enquanto evitavam olhar-se. Os gatos cada vez mais se comportavam como lémures. Os anões enfeitaram-se para o jantar e cada um comeu o seu ovo cozido. Depois foram dormir. Quando adormeceram, os gatos deixaram de se comportar como lémures. No entanto os ovos dentro dos ventres dos anões portaram-se como ovos. Devido a isto os anões engravidaram.
Na manhã seguinte deram à luz dois lémures, que desataram a miar. Tendo os anões morrido no parto, a casa ficou com um grupo de lémures que imitavam gatos e um de gatos que se julgavam lémures. Quando os dois se encontraram geraram uma Entidade que era parte lémure parte gato, mas com personalidade de anão. Esse novo ser acabou com todos os outros. Ás vezes na solidão do quartzo-rosa a Entidade conversava com o butagaz cromado e dizia-lhe: Não os suportava, eram pouco parecidos comigo.
Serviliana Dobler-Pyiu, A gestação do absurdo

Serviliana Dobler-Pyiu surpreendeu o micro–mundo das artes literárias com O fiador de filamentos em 1992. Neste micro texto extraído duma das suas obras A gestação do absurdo, as palavras rodam como se fossem uma aranha já bebida a deslindar um cubo de Rubik. Ambas as obras foram publicadas pela Guano Conceptual.

Jantar

E só mais um detalhe... Quem não concordar com a escolha do restaurante é favor endereçar os protestos ao Leonardo. Eu só servi de pombo correio...!

Flávia

Jantar de encerramento do atelier

Já está marcado o jantar que assinala o fim do presente atelier de escrita. Realizar-se -á no restaurante "O Cometa", junto à igreja de S. João Novo. Na próxima quarta feira passaremos a folha de inscrições.
Flávia

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Gomercindo Tácito


O galho impante
O bico crocante
Réstias foleiras
De conas traseiras

Tudo é pecado
Até a chibata
Que dói na beata

São os da pepita
Garimpeiros do rei
Que nunca os visita

Viva a pita!
Viva a pita!

Gomercindo Tácito, Cosmética Vulvar


A obra de Gomercindo Tácito foi descrita pelas perto de oito pessoas que a leram como a expressão mais ordinária e vulgar do marialvismo. Sobre ele disse Alice Strudel “não encontro nada de belo ou de voluptuoso nas palavras de Gomercindo Tácito; é um autor pornográfico e que tenta sem o conseguir untar as partes femininas” ao que Gomercindo lhe terá respondido por carta e citamos: “o facto de a senhora achar os meus escritos vulgares enche-me de gaúdio desejo-lhe a melhor sorte nas sua lutas pelo bem estar dos vegetais . Que um pepino guie a sua mão até á sua gruta antes que fossilize ou comece a criar grelos, sua maluca". Dois poemas de G. Tácito figuram na colectânea de António Fangoria Gancho O hospício dos felizardos. A obra supra citada Cosmética Vulvar é uma edição de autor com cerca de dez anos.