sexta-feira, 25 de julho de 2008

Um dia de sol

A delicadeza dos dias corre suada em calda pelos dias de sol. Ao mexer-me para agarrar o copo gelado as axilas inundam-se. Bebo a limonada e encosto-me para trás. Só luz como água escorre por mim. Suor luz e limonada. Estou felizmente com o meu amor, que anda pela casa de quarto em quarto a arrumar. Estufei um bocado de cabrito com ervilhas presunto e cebolas. Cheira pela casa toda. O meu bebé acordou soltando alguma bem-vinda gritaria. É a hora dele sorver dos seios da mãe a pescada com tomates e coentros que eu fiz ontem ao jantar. E mais o polvo e arroz do almoço. Levanto-me e saio da beira do sol e vou pelo corredor para o quarto onde mama o meu bebé. E lá estão os dois , mãe e filho. Dou um beijo a cada um e volto para o sol. Está um dia lindo e olho para a cidade do outro lado do rio. Ás vezes quando me encharco de sol tenho a certeza que por não pensar muito, existo melhor.

Ao poente começamos a comer aproveitando o dormitar da cria. Beijo depois de jantar. De língua para limpar resquícios de doce. Cedo virá a noite fresca e a lua. E aqui paro o texto porque o quero solar.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Chá das quatro

Pouco a pouco fora desistindo de muitas coisas que antes fazia.
Deixara de ir fazer compras ao centro da cidade. Os transportes públicos sempre cheios de pessoas de rostos fechados e impacientes e jovens desrespeitosos pareciam-lhe muito pouco seguros. Tivera sorte naquela última vez em que caíra por aquela senhora a ter ajudado. Ajudara-a a levantar-se e acompanhara-a a casa.Via-se que era uma senhora com educação. Depois com a atrapalhação não guardara dela nenhum dado, nem o nome, e não lhe pudera agradecer.
Só tivera uma entorse, mas ficara sempre mais fraca daquela perna.
Dependia mais do telefone. Da mercearia traziam-lhe o que encomendava. Não tão bem escolhido, é verdade, mas não podia ser exigente.
O que ainda continuava a manter, era o lanche de sábado com as suas velhas amigas.
Antes eram cinco, mas a Mimi tivera um ataque que a deixara para sempre de cama, até se ir de vez, há dois anos.
Fora visitá-la algumas vezes. Tinha um olhar parado e não parecia estar ali. Do lado esquerdo da boca, mal fechada, saía-lhe um fio de saliva que a filha de vez em quando limpava, enquanto comentava: "hoje ela está melhor e ficou contente por a ver". Não sabia se o dizia por si ou por ela própria. No dia do funeral parecia sobretudo cansada e com os pesâmes quase todos lhe diziam "agora a mãezinha descansou finalmente, não sofre mais". Descansaram a mãe e a filha. Depois de dois anos assim e logo a Mimi que era tão animada.
Tinham ficado as quatro, mas nem sempre vinham todas ao lanche. Chegavam pelas dezasseis, com passos curtos e fatos finos, como já não se fazem. Sentavam-se na mesa do canto à janela. A sua mesa. Se estava ocupada escolhiam a mesa mais próxima, aborrecidas com aquela contrariedade até a esquecerem com a conversa. Ocupavam os lugares pela mesma ordem, deixando vagas as cadeiras das que faltavam. Pediam chá, escolhiam bolos, punham a conversa em dia e criticavam os novos tempos. Naquelas horas voltavam a ser elas, já não senhoras idosas, mas as raparigas da mesma idade, na segurança do que conheciam umas das outras, mais confiantes numa ordem do mundo.
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Scrabble, Julho de 2007
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Scrabble, começou a publicar textos num blog em Julho de 2006. A sua identidade é desconhecida, crê-se que para ele próprio.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Ferdinando Silvestre



Deves dizer-lhe que ela sabe a atum depois de ela te dizer tens cá uma lata.
Se gostares mesmo dela compara-a com um prato qualquer tipo lagosta ou trufa (1).
As mulheres têm preconceitos estéticos em relação á comida por isso não lhe chames rojãozinho ou filete. Evita o porco e as suas analogias, soa inconveniente ao sexo fendido. Acima de tudo lembra-te que a maioria das mulheres só querem amor, atenção e nabo picante. É minha contenção que as mulheres evitam o confronto por isso segue-lhes o exemplo, tenta convencer quando te convencem e tudo ficará bem.


(1) Mulheres de pendor alternativo gostam de analogias com tofu

Amor eterno, Ferdinando Silvestre


Não conheço mais nada da obra de Silvestre a não ser este opúsculo sobre a sedução e o entendimento entre géneros. Teve uma edição de autor há uns anos.

domingo, 20 de julho de 2008

" Tardes do Tiço`s"


" Mãos sujas" carregando o peso da existência, da liberdade não desejada...
A angústia que corroía o âmago até ao limite.
Presos na densidade dos ideais que os consumiam, dos sentimentos que os sufocavam...
E o vazio... o vazio ameno das tardes, das odes ao Ian Curtis, do fumo dos charros, dos acordes da "all my colours"... a ânsia de não ser.
Procuravam a identidade na melancolia do outro, espelhavam-se na sua relutância em viver...


Maria

sexta-feira, 18 de julho de 2008

terça-feira, 15 de julho de 2008

Prédica de domingo por Alice Strudel


Prédica de Domingo

Não acreditais, ó crentes, nos benefícios da comida aquecida?
Não acreditais vós na cozinha lenta?
Sois porventura glutões da carne picada?
Gostais do ar?
Gostais do pranto microbiológico dos centros comerciais,
E do sussurro dos carros nos parques,
Depois de excitado o tímpano
No rastreio em stereo dos multiplex.


Gostais porventura do zurzir surdo
Da arrazoada dos sítios sem alma
Onde vacilamos como crianças inocentes
Sem dó nem alma.
Será essa a vossa terra da fartura
Ao domingo?

Alice Strudel


Nota de alien taco: Acho a poesia de Strudel tão estimulante como as alocuções do Padre Borga. No entanto, não pude deixar de postar este poema. Talvez por anteontem ter sido domingo. A obra não tem edição portuguesa e não consegui arranjar tradução para multiplex e stereo no poema. O porquê de eu traduzir Alice Strudel é um mistério até para mim próprio. O título em inglês do livro é Porcupine Blues.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Darcy Grey Feather


Um dia com reserva de amor


Una música de voz rouca
Na toca da quente amada
Cheiro da mata louca
Bem cavalgada bem chegada

Delírio herbal
Na casa do suor
Sórdido tribal
+Tolo de amor

Depois há noite borracheira
Seguida de cacto amargo
E suco duma amoreira
Para tirar o travo

Darcy Grey Feather, Flores ossudas


Este poema foi lido pela primeira vez num pow-wow. Foi na reserva apache da montanha branca durante um beberete ao qual Darcy chegou já um bocado tocado com tsiwin. Este livro Flores ossudas foi publicado pela Vértice Hormonal.

sábado, 5 de julho de 2008

Elvino Sacripanta


Não existe em Portugal aristocrata mais séria do que Mena Mónica. Também conhecida como A mulher que comeu Eça. Há mais Eça nos seus tornozelos e joelhos que nos livros do próprio. Dentro do tutano das suas deliciosas tíbias há toda a Sociologia. Mais acima nas coxas há só chicha , e ao chegar ao solilóquio vestal encontra-se Cesário Verde envolto em floresta ainda viçosa. Não vou mais acima para não despertar Camões nos Montes Hermínios que Mena transporta como troféus duma juventude táctil. VIVA MENA! Tudo o que ela diz enche o povo de exaltação!




Elvino Sacripanta, Viva Mena!



Elvino Sacripanta distinguiu-se com mérito no lançamento do dardo na década de oitenta. Desligado do atletismo dedica-se á ficção lançando Eu tu e um rodízio e o clássico A gaja das gravatas. Recentemente lançou a biografia não autorizada VIVA MENA! Tudo editado pelas Edições Anafadas.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Serviliana Dobler-Pyiu


A casa estava pintada de azul-cobalto por fora. Por dentro era rosa-quartzo e madeira petrificada. Dois anões de cabeças enormes e orelhas bicudas cozinhavam numa mesa onde luzia um fogão de campismo num cromado que cegava. Os três gatos comportavam-se como lémures. Os anões cirandavam enquanto coziam ovos e gemiam baixinho enquanto evitavam olhar-se. Os gatos cada vez mais se comportavam como lémures. Os anões enfeitaram-se para o jantar e cada um comeu o seu ovo cozido. Depois foram dormir. Quando adormeceram, os gatos deixaram de se comportar como lémures. No entanto os ovos dentro dos ventres dos anões portaram-se como ovos. Devido a isto os anões engravidaram.
Na manhã seguinte deram à luz dois lémures, que desataram a miar. Tendo os anões morrido no parto, a casa ficou com um grupo de lémures que imitavam gatos e um de gatos que se julgavam lémures. Quando os dois se encontraram geraram uma Entidade que era parte lémure parte gato, mas com personalidade de anão. Esse novo ser acabou com todos os outros. Ás vezes na solidão do quartzo-rosa a Entidade conversava com o butagaz cromado e dizia-lhe: Não os suportava, eram pouco parecidos comigo.
Serviliana Dobler-Pyiu, A gestação do absurdo

Serviliana Dobler-Pyiu surpreendeu o micro–mundo das artes literárias com O fiador de filamentos em 1992. Neste micro texto extraído duma das suas obras A gestação do absurdo, as palavras rodam como se fossem uma aranha já bebida a deslindar um cubo de Rubik. Ambas as obras foram publicadas pela Guano Conceptual.

Jantar

E só mais um detalhe... Quem não concordar com a escolha do restaurante é favor endereçar os protestos ao Leonardo. Eu só servi de pombo correio...!

Flávia

Jantar de encerramento do atelier

Já está marcado o jantar que assinala o fim do presente atelier de escrita. Realizar-se -á no restaurante "O Cometa", junto à igreja de S. João Novo. Na próxima quarta feira passaremos a folha de inscrições.
Flávia

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Gomercindo Tácito


O galho impante
O bico crocante
Réstias foleiras
De conas traseiras

Tudo é pecado
Até a chibata
Que dói na beata

São os da pepita
Garimpeiros do rei
Que nunca os visita

Viva a pita!
Viva a pita!

Gomercindo Tácito, Cosmética Vulvar


A obra de Gomercindo Tácito foi descrita pelas perto de oito pessoas que a leram como a expressão mais ordinária e vulgar do marialvismo. Sobre ele disse Alice Strudel “não encontro nada de belo ou de voluptuoso nas palavras de Gomercindo Tácito; é um autor pornográfico e que tenta sem o conseguir untar as partes femininas” ao que Gomercindo lhe terá respondido por carta e citamos: “o facto de a senhora achar os meus escritos vulgares enche-me de gaúdio desejo-lhe a melhor sorte nas sua lutas pelo bem estar dos vegetais . Que um pepino guie a sua mão até á sua gruta antes que fossilize ou comece a criar grelos, sua maluca". Dois poemas de G. Tácito figuram na colectânea de António Fangoria Gancho O hospício dos felizardos. A obra supra citada Cosmética Vulvar é uma edição de autor com cerca de dez anos.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Alice Strudel


É com pouca alegria e remansos de fel que me vejo forçada a criticar a actual politica em relação ao tratamento inumano a que os melões são sujeitos. Desde a sua colheita, durante o seu transporte até aos pontos de venda. São arrancados á terra com brutalidade ímpar, são degradados aos trambolhões em furgonetas e camiões. Finalmente são expostos nus nas prateleiras dos mercados. Mas ignomínia das ignomínias antes de serem transladados para os nossos lares comensais, são apalpados por dedos ciosos de repasto beatífico. São depois retalhados e devorados pelos humanos de cujos lábios pende um sangue transparente destes infelizes. Das pevides, mais cónicos escravos são obrigados a nascer. Os melões são como nós. Acabem com a sua miséria. Sejam humanos com os melões.


Manual da revolta vegetal, Alice Strudel


Alice Strudel é uma escritora apátrida com residência em Beja onde vive. Activista dos direitos dos vegetais Alice lutou durante os anos sessenta contra a lobotomia, finda essa luta virou-se para o quintal. Desde aí não há seres da terra que ela não proteja. Os dois últimos livros, Abóbora final e O crepúsculo dos nabos foram editados pela Cinco Exemplares.

domingo, 29 de junho de 2008

O almoço do guaxinim(seguido da sesta representada graficamente pelos zzzzzzzz....)


Abetarda singela
Croutton molhado
Em doce de beringela
Párias de coalhado

Grandiosa salada
Molete ensopado
Carcassa cevada
Brie grelhado

Molho de alho
Repuxo de buxo
E um bandalho
Ávido de luxo

Bifes de foca
Milho real
E silencio na toca
Zzzzzzzzzz……….

Flamenco 3D (anaglyph)

sábado, 28 de junho de 2008

Adoro o verão, a perspectiva das férias, o calor do sol na pele, andar com pouca roupa, sentir no final da tarde o vento quente a levantar-me o vestido e a afagar-me o cabelo para me fazer cócegas nos braços.
Adoro a ideia de ir ter tempo para ler livros, trocar palavras com quem já não estou há demasiado tempo, estar com os amigos, estar com quem gosto.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

José António Marina


Quando digo que a inteligência joga, não falo metaforicamente. A inteligência joga consigo mesma executando as suas actividades livremente por fruição, prescindindo de normas e finalidades, insubmissa e incansável. Numa palavra, comporta-se com engenhosidade. No engenho estão todas e cada uma das características do jogo.
Em primeiro lugar, é uma actividade agradável, auto suficiente e portanto inesgotável. O jogo não pretende atingir fim algum fora de si próprio. Por isso é infinito. Meter um golo ou ganhar um jogo não são a sua finalidade, porque assim que acaba ,senão houver cansaço começaria outro. O corpo e o espírito captam-se como inesgotáveis e essa sensação de poder forma parte da alegria do jogo.


Elogio e refutação do engenho, José António Marina


José António Marina nascido, em 1939, em Toledo diz de si próprio “ser um observador sem domicílio fixo e um detective cultural”.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Ezequiel Sernancelhe


As minhas grandes referências não são literárias, daí o facto de eu escrever tão mal. As minhas influências são o saudoso Roussado Pinto e aquele brilhante pasquim que era o Jornal do Incrível. Outro grande cacho do lagar da minha criação é a poesia popular escrita em casas de banho de café. Acho que no actual contexto a cultura precisa não de ser elogiada mas sim de ser torturada. Disponho em meu poder vários desses instrumentos a saber: o strapado para autores chatos como o caralho, o aseli para poetas de merda, as tablillas para os pedantes cheio de floreados, a escalera para os ficcionistas de trambolhos, a gehena para as escritoras de chás de caridade, o tijolo quente para os donos das barracas pequenas, e a dama de ferro para os igualmente cabrões donos das barracas grandes.


Ezequiel Sernancelhe, A varanda das virtudes


Ezequiel Sernancelhe é um médico de província que além de tratar as maleitas das suas aldeias se dedica ao ensaio e á entomologia. O seu primeiro ensaio Lídia Gorge não sabe assobiar vendeu dezanove cópias. A varanda das virtudes já vendeu perto de cinquenta. Ambas foram publicadas pela Desova do Lucro.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Virgolino Toledo


Patarata

Oh virtude imaculada
Oh adornada bênção
Vénus dourada da extrema –unção
Leva contigo o morcão
Que sem nada querer
Fodeu a selecção


Virgolino Toledo, Darwin revisitado e a selecção natural




Virgolino Toledo nasceu numa caixa de sapatos produto dos amores de dois anões. Desde cedo viu que o mundo alto e hipócrita lhe era adverso. Tendo sido figurante na Guerra das Estrelas como Ewok, dedica-se á poesia desde há trinta anos, tendo ganho o prémio do melhor poeta do mundo abaixo do metro e cinco. A sua Espanha natal lentamente vem apreciando a poesia deste pequeno homem das palavras. Duas das suas obras, a acima citada e uma outra bastante polémica Sou anão e depois? Foram publicadas pela Retrosaria Flavius.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Terebentino Lombardo


Versos arborícolas

Como é bela a sandice colada á velhice
Ás árvores ninguém desdiz a idade
Mas antes as gabam e a seus arcaicos ramos
Verdura pendente do céu
Esparregado plantado no tecto azul
Estrofes fendidas no vento
Grossa riqueza oferecida em sombra
Alvéolos dum mundo que já respira mal.
Refúgio de bichos.
Matéria de berço e de barco de recreio.
Cadeira de escola e caixão.
Árvores sandeiras, velhas matreiras
Cabe a vós salvar o mundo e a Ikea.



Terebentino Lombardo, Nú no Éden


Terebentino Lombardo é funcionário público há noventa e tal anos. O tempo livre dedica-o á poesia. Tem um papagaio loiro de bico doirado e pouco mais. Desde 2002 publica regularmente na Trampolim Taciturno sempre o mesmo livro: o clássico florestal Nú no Éden.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Jantar do Atelier - 25 de Junho

Foi marcado para quarta feira dia 25 de Junho um jantar. Quem queira ir e ainda não o tenha dito, pode falar com o Roldeck ou enviar-me um mail para escritaredonda@gmail.com que prontamente lhe transmitirei.
Para tranquilizar qualquer eventual interessado garanto expressamente que neste jantar não vou tentar entregar nenhum dos prémios anuais que ficaram por entregar (que foram todos).

segunda-feira, 16 de junho de 2008




Cheira-me a éter
Erva-doce mascarra boião
Ácido limão
Bruta forra fecal
Duro e inerme
Enorme verme
Aspira alvo
De flecha semente
Demente demente
E mente.
Mentiroso por gula
O poeta borra-se no eu
O papel a que limpa o cú
É primo da sua mão
Que é carne osso e tutano ( para chupar)
Pela terra

Darcy Grey Feather, A lebre e o ponto de fuga


Darcy Grey Feather é um poeta da nação Oglala, publicado pela Vértice Hormonal desde 2004. Na badana pode ler-se que é um católico animista, e que tendo sido criado por uma televisão e duas lobas tem retido a insanidade com a ajuda de grandes quantidades de álcool. De si próprio diz: “sou mais um índio bêbado fora duma reserva, vão-se foder! Se querem que eu pare de beber tragam os búfalos de volta seus cabrões.”

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Manifesto do papel macio



Vimos por este meio expressar a nossa indignação pela grossura desmesurada do papel do Jornal das Letras. O Jornal das Letras tem o dever moral de se tornar mais absorvente e macio. As fotografias e os textos dos autores mais significativos deviam ser impressos nas páginas do meio mais suaves e ultrafinas numa gradação de agrado às mucosas anais do leitor.


Os gnomos de serralves

sábado, 3 de maio de 2008

Insensatez

Senti saudades de Torga neste fim-de-semana. Voltei a folheá-lo em busca da sua magnífica perspicácia para as coisas humanas.
"Coimbra, 11 de Março de 1973 - Não tenho emenda. Teimo na insensatez de pôr a mesma intensidade em cada acto do dia a dia, até quando sei objectivamente que não vale a pena. E acabo por me gastar da maneira mais absurda, como uma vela que continuasse a arder diante da evidência da luz do sol. Dissipo o presente em vez de o capitalizar para o futuro. Sempre disponível e sem prioridades absolutas, quero equivaler-me em todas as circunstâncias, e o resultado é andar atrasado comigo por um perdulário escrúpulo de atenção."
Quantos de nós?

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Orelhas com musgo


Ai quem me dera ter outra vez cento e cinquenta anos

verde musgo invade-me as orelhas

pouco dou pelos meus olhos

de som sou parco de novo nas orelhas (deve ser do musgo!)


Bom tom não tenho

mas alvitres de penalista

se não parece-se o Dumbo

era fadista.



Fui ter com um sábio

que me disse num lampejar

deixa a redonda

dedica-te ao lar.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Aviso muito importante

Já estão abertas as inscrições para o novo atelier de escrita!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Jantar do blogue colectivo e do atelier de escrita

Conforme mails enviados oportunamente, irá ter hoje lugar em Serralves, pelas 20.30, um jantar para o qual estavam convidados todos os colegas que frequentaram o primeiro e o segundo ateliés de escrita, e que confirmaram a sua presença até às 19 horas.

Durante o jantar que será oferecido, ir-se-ão declamar alguns poemas de Fernando Pessoa e de António Queirós.

Posteriormente, espera-se que alguns colegas do blogue, venham a redigir e a publicar aqui alguns textos sobre o evento que poderão depois vir a ser também publicados na Revista Semestral de Serralves.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Novo atelier de escrita

Na página de Serralves na Internet já se pode encontrar a informação sobre o novo atelier de escrita que se inicia em Abril. Ver aqui

quinta-feira, 27 de março de 2008

Johnny Cash God's Gonna Cut You Down

Tonicha - Menina - videoclip

de onde se retira com galhardo regalo que Tonicha e Joana Amaral Dias são uma e a mesma pessoa.

NELSON NED - Tu me haces falta

segunda-feira, 24 de março de 2008

Festa na aldeia




Não custará acreditar que a prática da natação sobreviveu até à época do homem erectus; sabemos por experiência própria que sobreviveu até ao tempo do homo sapiens. As pessoas abastadas bastante para poderem idealizar os locais onde habitam constroem casas de banho e chuveiros e piscinas e passam as férias perto do mar. Uma vez aí exibem a tendência talassotrópica que fascinou Robert Frost:

As pessoas ao longo da areia
Viram-se e olham todas na mesma direcção.
Viram costas à terra
Olham para o mar o dia inteiro.(…)

Uma tal preferência parece-nos “apenas natural – faz parte da natureza humana”. Mas porquê? Ela não faz parte da natureza dos primatas. Se descendêssemos meramente de um símio arborícola encalhado, os nossos instintos atávicos deviam inflacionar os preços dos hotéis com vista para a floresta, e as pessoas instalar-se-iam às centenas nas suas espreguiçadeiras para contemplar as árvores o dia inteiro.”

A Hipótese do Símio Aquático, Elaine Morgan, Lisboa, Via Óptima, 2004



Nota de Alien Taco - Este livro foi-me oferecido por Pimpinelo Rojão, por ocasião do seu 90º aniversário, em Berças de Trasco, uma remota cidadela na Terra Média. Na festa apenas eu cinco minhotas sem buço vagamente vestidas e Pimpinelo. Com os dentes cheios de arroz de sarrabulho ele disse-me: “toma tens que ler isto. Afinal há quem ache que viemos da água. Símios aquáticos, extraterrestres; Deus donde viemos nós, afinal?”- foi a pergunta de Pimpinelo enquanto se alambazava de pudim de ovos com fios dos mesmos. Eu lá li o livro do velho Rojão e agora partilho convosco este texto do dito. Pimpinelo trabalhou nos caminhos-de-ferro como comboio durante setenta e cinco anos, reformou-se há 25 e espera viver até aos cem na sua quintarola de Berças de Trasco, rodeado de gnomos de jardim e muita carne de porco. O seu lendário apetite por cultura levou-o a criar a sua própria companhia teatro: “Os Fémures da Barcarola” e uma editora a Trambolho de Bolso. No fim da festa já adornado pela bebida com olhos flamejantes disse-me : “cá para mim o segredo está na ilha de Páscoa. Esses é que sabiam.” E foi com esta enigmática e bêbada frase que se despediu emocionado o meu velho amigo Pimpinelo Rojão, o perseverante procurador do sentido e da origem do seu semelhante e dos doces conventuais.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Leituras


Confesso que não tive oportunidade de ler o livro O meu nome é guião. Mas o título é catita. De Lobo Antunes tive o prazer de ler a Memória de Altifalante onde como toda a gente me pasmei perante a parábola do elefante e do cornaca. Para quem não leu o livro trata-se duma pequena estória sobre um cornaca sádico que todas as manhãs sorvia o seu leite de coco depois de abrir o mesmo coco na cabeça do elefante. Durante anos o elefante aguentou mas um dia ao entardecer pegou num coco e esmagou a cabeça do cornaca. Mas a beleza de toda a parábola jaz no facto de ninguém saber se o elefante comeu o coco ou não. Li também o belo Ontem não te vi na Lapónia, onde o personagem Ravintola abandona a sua ocupação de vendedor de gomas em Helsínquia para ver a aurora boreal e encontrar o seu guia animal. E mais não digo. Recomendo toda a obra de Lobo Antunes até os livros que ele ainda não escreveu. Sendo psiquiatra não é maluco de todo, o que é, como é sabido cousa muy rara.


sábado, 15 de março de 2008

O meu nome é legião

Qual dos colegas - bloggers leu o último livro de Lobo Antunes e quer dar uma opiniãozinha ? ? ?

quinta-feira, 13 de março de 2008

O encontro das espécies

Numa festa de galantine bizarro amor,
uma jovem encontrada nua e sorridente em galante pose.
A seu lado, um fox terrier exausto fumava um cigarro.
A donzela fumava também.
Ao longe Tintin fugia abotoando as bragas.

terça-feira, 11 de março de 2008

www.imeem.com

Continuando a falar de música ( Benvindo Zé Mesquita!), e para quem gosta de encontrar música na Web fica a indicação de um site com muita música online. Inclusivé podem copiar as músicas para blogs, páginas pessoais, etc, como fiz com a música do JP Simões. Gosto do ritmo e acho a letra genial.



sexta-feira, 7 de março de 2008

Vivam !
Finalmente tenho acesso ao blog, com a imprescindível ajuda da Gabriela.
Mas continuo a reinvindicar para mim, se f. f., o primeiro prémio de "o mais nabo a lidar com estas coisas da informática".
Como não tenho mais nada para apresentar, venho dar uma sugestão: apagar a luz, pôr o som mais alto e fechar os olhos para tocar o pico do sublime com este trecho em quatro versões:

Versão A
http://www.youtube.com/watch?v=dOYsdtwLSrA

Versão B
http://www.youtube.com/watch?v=tjG6NaMKQo0

Versão C
http://www.youtube.com/watch?v=dOYsdtwLSrA&feature=related

Versão D

Depois aceita-se votação: 4 pontos na interpretação melhor, 3 na segunda, etc.

' Bora !

Um abraço ou um beijo conforme o / a destinatário / a.

Zé Mesquita ( o mais n. a l. c. e. c. da inf. )

quarta-feira, 5 de março de 2008

António

O calor e a ansiedade encharcavam a face de António. Os fios que tombavam da sua testa aliavam-se ao cansaço que lhe pesava as pestanas. O suor escorregava, em gotas, pela cana do nariz, para se acamar nas covas do seu lábio superior. Acumulava-se a água, como um bigode, por cima da boca até ser sacudida por um safanão violento vindo do volante. Outros fios escorriam-lhe nas costas provocando arrepios embaraçosos que o deslocavam no banco. Habituara-se ao suor desde que começara a tomar peso, ainda antes de partir para África, mas, aquela viagem apressada, estava a transformá-lo num pano encharcado. Uma mosca enamora-se do seu ouvido esquerdo em tangentes sonoras incómodas que procurava interromper com o esgar do pescoço na direcção da janela. As mãos melosas tentavam alcançar a alavanca para abrir o vidro, permitindo expulsar a mosca e repor alguma justiça na sua temperatura corporal.
Há mais de cem quilómetros que não falava, os pensamentos ocupavam-lhe a mente, não deixando espaço para o discurso. Ao seu lado, Júlio não se atrevia a quebrar o silêncio. Noutras circunstâncias talvez o fizesse mas, desta vez, limitava-se a refrescar-se com água e a desejar que a noite anterior nunca tivesse acontecido. Preparava, há algum tempo, uma interjeição que resolvesse aquele desconforto que se adensava mas, desistia sempre no último momento. Descrevia gestos tensos, ora arrastando as mãos sujas pelas coxas, ora coçando violentamente as patilhas até que se enchessem os ombros de caspa fina. Júlio nunca fora um tipo violento, nem mesmo com os pretos em África, a quem raramente levantava a mão, mas o álcool e uma zaragata foram suficientes para o levar à vertigem que o condenou.
Aproximava-se a fronteira, forçando a paragem para que Júlio se escondesse na bagageira do Volvo. Escondeu-se por baixo de umas mantas e de uns sacos de viagem que serviriam para o disfarce, pediu mais uma vez desculpa como um cão arrependido e envolveu-se quieto. António tornou ao volante, apesar de ter ponderado abandonar o carro naquele momento. Recordou, nesta altura, a fronteira da Namíbia, que passou vezes sem conta em direcção à Africa do Sul, o calor e a poeira davam particular credibilidade a esta recordação.
Chegado à fronteira, António parqueou o carro e meteu conversa com o fiscal que se preparava para vistoriar o carro. Abriu a bagageira, onde se distinguia um pé de Júlio enroscado por baixo dos sacos. Um choque de pânico percorreu António, que se viu perdido naquele momento. Puxou as calças para cima, num gesto nervoso que muitas vezes repetia, e retomou um ar calmo. Julgando ser o pé de um morto e temendo o pior também para si, o fiscal disse a António que seguisse.
Seguiram para Tui onde ficou Júlio, em lágrimas, com algum dinheiro para a fuga. Uma semana mais tarde, ainda com dinheiro no bolso, voltou a Portugal e entregou-se à guarda.

Desenho - Andreia Dias
Este é o último post do meu blog, para que mais gente o leia, tem poucas visitas este meu blog (http://hermesrevelado.blogspot.com).

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Regras para a prática da escrita

Tento ver a escrita como algo de raiz leve e moderada, algo que inicialmente sugere a descontração. Um passo para desligar a rotina, o caminho para o abandono das programações constantes que os nossos pensamentos e actos imediatos evidenciam diariamente.
Esta visão tem como objectivo libertar a escrita do estigma da obrigação. Felizmente posso pensar assim. Não vivo da escrita e a minhas pretensões não passam de uma forma de descobrir-me a mim próprio, ainda que esse propósito do auto conhecimento constitua um plano ambicioso e em certa medida contenha um lirismo inocente que contribui para me inebriar. Não levar-me demasiado a sério constitui sempre um bom contrapeso. Ás vezes é como fosse um jogo e brincasse ao : "escrever o que sou agora". Porem, vou sentindo necessidade de introduzir algumas regras ao meu "jogo da escrita" e pouco a pouco vou colhendo e absorvendo algumas ideias fruto dos meus interesses e procuras. Vou tendo a percepção que há vários níveis de profundidade quando mergulho nas palavras escritas e gostava de entender qual o grau apropriado para cada estado emocional. ( Sempre quis escrever uma frase parecida com esta.)
Gosto de pensar na escrita como uma terapia criativa, aliás algo que no atelier de escrita com o Mário Cláudio é explorado. Com base nesse conceito, a escritora Natalie Goldberg, norte americana especialmente conhecida pelos seus cursos de oficina de escrita, define algumas regras da prática de escrita que passo a transcrever:

" As regras de escrita são o ponto de partida, o início de toda a escrita, o fundamento para aprender a confiar na tua mente. Confiar na tua mente é essencial para escrever. As palavras saem da mente.
E alem disso creio nestas regras. Talvez seja un pouco fanática por elas.
- Actuas como se fossem regras para viver, como servissem para tudo - disse um amigo querendo importunar-me.
Eu sorri.
-De acordo, vamos provar. Servem tambem para o sexo? -Perguntou ele.
Levantei o polegar para indicar a regra número um: "Manter a mão em movimento". Assenti com a cabeça.
Dedo índice, regra número dois: " Ser concreto". Soltei um grito de júbilo.
Dedo número três: " Perder o controle". Estava a tornar-se claro que a escrita e o sexo eram o mesmo.
Finalmente, a número quatro: " Não pensar", disse eu.
Sim, tambem funcionavam para o sexo. Eu tinha razão. O meu amigo e eu começamos a rir.
Daqui para a frente experimenta estas regras com o ténis, enquanto conduzes o carro, ou preparas uma sandes de queijo ou disciplinas um cão ou uma serpente. De acordo. Pode ser que não deem resultado sempre . Mas dão com a escrita. Experimenta."

"Agora cito umas regras que não são necessariamente aplicadas ao sexo, mas que se quiseres podes tentar aplicá-las.
Não te preocupes com a pontuação, a ortografia, a gramática.
Não tenhas problemas em escrever o pior lixo da nação.
Vai directo ao "pescoço". Se surgir algo pavoroso segue-o. Aí é onde está a energia."

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Este país não é para velhos


Este país não é para velhos. Jovens

Abraçados, pássaros que nas árvores cantam

-essas gerações moribundas-

Cascatas de salmões, mares de cavalas,

peixe, carne, ave celebrando ao longo do Verão

Tudo quanto se engendra, nasce e morre.

Prisioneiros de tão sensual música todos abandonam

Os monumentos de intemporal saber.


W. B. Yeats


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Poema de merda

Sentei-me no mármore
e logo o cu aqueceu.
Das entranhas
a bem da tripa
saiu fétido folhado
de hortos e grelos.
Ali sentado no mármore
percebi que cagar é comer ao contrário.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Finalmente!!!!

Finalmente consegui entrar neste universo fertil.
Vou ler tudo com carinho e depois dar as minhas "achegas".
Até breve

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O Rosto

A propósito do tema da morte, vezeiro nas nossas aulas de escrita, principalmente nas últimas, resolvi partilhar o seguinte texto do Diário de Torga, de que, como já perceberam, gosto muitíssimo.
"Coimbra, 20 de Março de 1971 - Nunca mais poderei esquecer aquele grito de terror esgazeado: - Ela aí vem! Ela aí vem! É agora! Ainda injectei adrenalina no coração, massagei, fiz respiração boca a boca. Nada. O homem estava irremediavelmente morto. Era um pesado cadáver a arrefecer e a enrijecer progressivamente, como o de tantos a que não conseguira valer pela vida fora. E só me restava esquecer o incidente e regressar aos papéis, até porque o doente estava à espera de ser atendido por outro colega, e a minha intervenção tinha sido puramente casual. Mas havia o facto inquietante da visão e do pânico. O alarme aterrado diante do espectro que mais ninguém descortinava. E continuo sem poder pensar noutra coisa, impressionado, aflito, com as palavras do moribundo metidas no ouvido. O que é que o sujeito teria visto? Como será o rosto da morte?"

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Garrida virtude




O longo beijo da preguiça

a alvorada na casa do texugo

e a fuligem do resto,

fazem de todos os tontos

reis de outros tolos.

E de ti o meu amor.

E de ti o meu amor.

Que não pára

nem para sonhar

ancorado nesta parte de tudo.

Nesta parte de tudo

no teu verde prado

no solar de carne

que rodeia a tua alma

do vermelho que jorra

da carne pintada da boca

dos lábios de rosa.

De lírio do sol

a tua alma por mim roga

à luz duma Virgem que olha

pela mantilha que suas

para rezar neste fresco abrigo de pedra

em casa de Guadalupe.

Nelson Ned - Tudo Passara

dedico este video singelo a todos os ilustres ouvintes com votos de um bom fim-de-semana.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

O Aviso 2

Os nomeados para a 1ª edição dos Prémios TanagraSA são:

Nas Categorias:

Prémio por ter dado o nome ao blogue.
Nomeados:
- Tanagra


Prémio o primeiro post a seguir à sugestão para se escrever qualquer coisa

Nomeados (alguns com votos negativos dos próprios)
- Pedrocalvao
- Pedro Brandão
- Paula
- Tanagra
- Roldeck

Prémio vejam lá se postam alguma coisa

Nomeados:
-Minerva
- Maria Antónia
- Gabriel Mário Dia
- Rotundas
- A. Roma
- Zeus


REGRA para a votação: Não valem votos negativos dos próprios!