Que se esgotem nas prateleiras, os buriéis,
Nas embarcações, as canetas e os papéis,
Que se esgote de mim o amor e o bem perfeito,
Que se esgote deste mundo, o meu sopro,
Para ordenação de cada coisa em certo feito.
Pela via de uma indignação contida
Que já não me é conferido direito de possuir,
Extravassa uma memória dolorosa,
que se não seja saudosa, seja daninha,
que se não seja nostálgica, seja triste.
“longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis da tua ausência.”
- Fernando Assis Pacheco
Para aqueles que nada chega jamais,
Famintos e esfomeados que arrancam a pele:
às dentadas, às golfadas, sorvendo o oxigénio.
Não sabem, não, não sabem parar!
Não sabem compreender o desespero,
De quem agridem, não os poder suportar
Mas aceitar por ter desistido do sonho.
Não sabem, não, não sabem parar!
Pum, pum, pum!
Peço-lhes baixinho, e aos berros e aos gritos,
E sem falar e por expressões lhes digo.
Mas não sabem ver, não, não sabem!
E explico por gestos e por palavras e por escrito,
Mas não sabem pensar, não, não sabem!
O meu grito só se faz ouvir no silêncio de mim
E grito bem forte: Alto! Basta! Já chega!
Pois não consigo suportar mais aventesmas
Mesmo o que jurei que contra natura suportaria,
Para provar a mim própria que era capaz.
Desisto! Pum, pum, pum!
Aceitar uma longa cadeia de um passado triste,
Talvez por promessa de um futuro novo,
Grito mais alto ainda: Alto! Basta! Já chega!
Na terra longínqua que embelezei para mim.
Minha! Egocentricamente minha!
Hipocritamente minha! Mas minha! Só minha!
Onde qualquer vislumbre externo nada é mais
Do que o falso sentimento de pertença a lugar algum.
Em que qualquer partida é partida,
Mas qualquer chegada é ilusão.
Não consigo suportar mais aventesmas,
Para provar a mim própria que sou capaz.
Desisto! Pum, pum, pum!
Para aqueles que nada chega jamais,
Famintos e esfomeados que arrancam a pele,
Às dentadas, às golfadas, aos arranhões,
Que levem tudo o que querem! - é o que peço
Mas que me deixem ficar!
Pum, pum, pum!
Um pouco mais de humildade, se faz favor!
Era preciso, um pouco mais de humildade!
Para os senhores e as senhoras da sociedade,
Para os falsos que gostam de se passar por amigos,
Para aqueles que não sabem respeitar a dignidade,
Um pouco mais de humildade!
Excelentíssimos senhores doutores,
Senhoras porta-voz,
Meninas virtuosas do passado e futuro presente,
E demais elementos do elenco que se identifiquem,
Um pouco mais de humildade, se faz favor!
Prefiro que se esteja menos faminto, menos esfomeado,
Talvez queira assim, porque não tenha mais para dar.
Prefiro que não se esteja sequioso e alucinado,
Porque também posso ter sede e também tenho medo.
Prefiro simplesmente estar em paz,
Sem famintos, esfomeados e sequiosos em redor,
Que me bebam a alma e me esfolem a carne.
Pum, pum, pum!
Um espaço de paz em meu redor.
All is full of love!
Onde não me tentem ludibriar com maldade,
Onde respeitem o que tenha a dizer,
Onde me saibam ouvir sem ficar incomodados.
All is full of love!
Onde saibam respeitar a diferença,
E aprendam a sorrir, a partilhar, a sentir,
Sem egos de enormes dimensões, sadismo e desprezo,
Que abafam o riso das flores e a dádiva da esperança..
All is full of love!
Sem ironias despedaçantes
Velhos de corações vadios
novos de corações vazios,
E eu totalmente só, e só porém.
All is full of love!
Mas, prefiro simplesmente estar em paz
O meu espaço de liberdade sem fingimentos
Sem pretensões, sem hipocrisias, sem falsos balões…
Pum, pum, pum!
Esvaziei-os a todos com um alfinete de dama.
Não fico a sorrir, prefiria não ter escrito este poema!
All is full of love! tem uma versão em que é Love is all around me!, sendo retirado da ideia expressa pela Bjork (vide post anterior)
Bom Ano!
Não me acredito que estamos em 2009!!!!