domingo, 19 de julho de 2009

Desprezível


Sobre o romance As Benevolentes de Jonathan Littel, diz Mario Vargas Llosa que não contém um único personagem que não seja absolutamente desprezível. É verdade, mas o livro é muitíssimo bom.
As Benevolentes são uma viagem épica sobre a distorção moral do homem e sua disponibilidade para o mal absoluto. Max Aue, personagem fícticia que escreve as suas memórias, conta-nos a maneira como ascendeu na estrutura SS Nazi. Percorre também os seus tempos na frente de Estalinegrado e descreve a inominável vida nos campos de concentração e extermínio. Fá-lo, por um lado, com uma falta de arrependimento explícito e, por outro lado, com a ilustração dos seus constantes dilemas morais.
Na mitologia grega As Benevolentes, também conhecidas por Erínias ou Eumênides, são deusas perseguidoras, vingadoras e secretas.
É díficil dizer-se o que faz de uma obra intemporal, ou incontornável. É díficil dizer-se que papel terá As Benevolentes na literatura. Depende de Littel e dos seus próximos livros e depende de outras coisas. Para já, As Benevolentes é um romance magnífico.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Welcome to Vulcan, Canada - G4tv.com

olá redonda ,rica vila espacial não achas? :)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Praça da Alegria - receita - "Bife à Chefe Silva"

O chefe Silva no seu melhor bife de sempre.Um mestre no seu melhor.Não houve crueldade nestas filmagens ,a vaca foi sedada antes de lhe ser retirado o bife.

domingo, 28 de junho de 2009

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.



eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.



Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.



Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.


António Gedeão
In Movimento Perpétuo, 1956




Existem músicas que são intemporais...

sábado, 27 de junho de 2009

Alien Ant Farm - Smooth Criminal

in memoriam

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Lendas Gregas


A serena e ornamentada sequência de acontecimentos segue com minúcia a caracterização duma cena cujo rendilhado picaresco, digo picaresco porque não quero subverter a curiosidade dos queridos leitores com o termo pornografia. Um impante falo rodeado de limos com lapas e conchas sedimentados nos colhões inchados a foder com um lago salgado e morno cheio de plantas e animais que esperam em frenesim erótico a descarga em onda do enorme pau, destacado mastro de veleiro, que assim se transporta pelas algas estiradas da margem do lago oh, sim que apenas poça parece ao ser assim roçado. O enorme bacamarte afoga-se lentamente como o último grumete da última vigia a ser sugado por um mar calmo e receptivo no corpanzil de lançadora de pesos que era a lagoa. E fodem com golfinhos zangados o mastro inchado do veleiro e a lagoa. E fodem como principiantes e depois mais devagar como reformados e depois aceleram para os vinte anos e finalmente a lagoa fica branca e tranquila o mastro do veleiro já cuspiu. E foi por esses dias que os locais começaram a chamar àquele sítio a Lagoa de Ouzo um espécie de pastis grego que torna a água esbranquiçada cor de sabão ou nhanha.
Popeye Green, Lendas Gregas, Ed. Quasimodo, 2009

sábado, 13 de junho de 2009

Cântico Negro


“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que os ouvisse
Quando me dizem: “Vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: “Vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Remoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens
E desenhar os meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “Vem por aqui!”
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!

José Régio

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Anti-Poema ou Poema Extremófilo (como nos bichinhos)

Um frasco de absinto com água das pedras
Um rectângulo cheio de Fedras
Rotundas para mamar betão
E o resto é restolho de Mirmidão

Conversos conventos e éter
Fugazes virtuosos
E o brilho ofuscante do cagalhão de beterrava
Terra brava de escravos
Salgueiros pagos no Paraíso
Ideia iníqua
E conclusão ridícula.

JCM sobre Branca de neve (II)

Estonian Folk Dancing Part 1

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O naufrágio do mar



Verrugas usando os lábios comem os escolhos das caras naufragadas.
Refastelam-se as santolas com os restos dos marinheiros.
É fartar vilanagem que há muito que comer
Muito a ser roído pelo mar que engole desde medula de marinheiro a aços de proa.
Comilão corrosivo sempre borracho com mercúrio e outros manjares
E do que os barcos vomitam e cagam.


O naufrágio do mar (excerto), Popeye Green, Edição de autor

sábado, 6 de junho de 2009

William Shatners Common People lego animation

belo poema ,excelente animação.

Geronte Bucéfalo Jr.



A Ilha dos Imortais

Dentro de um barco, estão homens.
O barco está dentro duma garrafa.
Tudo isto é normal, aborrecido.
Mas, os corações dos marinheiros
Estão fora dos corpos, pregados à pele.
Isto é anormal, absurdo mas excitante.

Ao chegarem à ilha os marinheiros entregaram os corações
Às mulheres do fim do mundo.
Artérias e aortas brilhavam em mãos de prata.
Elas podiam ver o pulsar por fora,
examinar os porquês do amor, contar os níveis de ritmo
eram eles nas mãos delas
as mulheres do fim do mundo comeram os corações
num repetir de mandíbulas ,
Não queriam ciência, mas carne.
Repletas as bocas de carniça,
faltava preencher o último vazio e consumar a boda.
Cheios de mar, os chegados, encheram-lhes as flores
Com nacos de carne e litros de leite.

Ninguém olhou para trás ao deixar terra.
Na praia, acenando, ficaram as mulheres do fim do mundo
Deusas grávidas dos mareantes.


Geronte Bucéfalo jr., Águas, Ed. Quasímodo, 2011

G. B jr. Publicou este livro em 2011 e foi aclamado pela Academia de Letras dos Dentistas e agraciado com o prémio Doc. Holliday / Almada Negreiros em 2010. Actualmente encontra-se no passado.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Pulp wait to play "Common People" on Italy's Roxy Bar

Versos arborícolas



A salvação do Ikea

Como é bela a sandice colada á velhice.
Ás árvores ninguém desdiz a idade
Mas antes as gabam e aos seus arcaicos ramos
Verdura pendente do céu
Esparregado plantado no tecto azul
Estrofes fendidas no vento
Grossa riqueza oferecida em sombra
Alvéolos dum mundo que já respira mal.
Refúgio de bichos.
Matéria de berço e de barco de recreio.
Cadeira de crisma e caixão.
Árvores sandeiras, velhas matreiras
Cabe a vós salvar o mundo e o Ikea.



Terebentino Lombardo, Nu no Éden


Terebentino Lombardo é funcionário público há noventa e tal anos. O tempo livre dedica-o á poesia. Tem um papagaio loiro de bico doirado e pouco mais. Desde 2002 publica regularmente na Trampolim Taciturno sempre o mesmo livro: o clássico florestal Nu no Éden.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Serralves em Festa 09 Entrevista com a Vénus de Willendorf



Aproveitando o Serralves em Festa tive ocasião de entrevistar a Vénus de Willendorf, que se apresentou com a sua peça-performance Cona Gorda. Descontraída e com um inglês de leve acento teutónico, a beldade ancestral propiciou-me esta breve e descomposta entrevista.

Qual a sua opinião sobre a lipoaspiração?
Acho uma estupidez.
Qual a sua comida favorita?
Tudo desde que esteja morto e cozinhado e isso inclui vegetais, frutos carne de caça e fast food e também alimentos pré-cozinhados e congelados. Também gosto de peixe cru e bife tártaro.
Qual a sua opinião sobre o aquecimento global?
Vai aumentar a venda de gelados bebidas frescas e granizados. Vai também aumentar a percentagem de bebedeiras nocturnas para ficarmos quentinhos toda a noite e podermos dormir de dia e assim evitar a exposição prolongada ao sol para não ficarmos sem pele.
Gosta de Portugal?
Sim muito é um país onde ainda há muita fé no princípio feminino, por isso nunca me deixam pagar nos restaurantes. Ontem por exemplo comi um atum inteiro grelhado com uma arroba de batatas e só me cobraram os 150 finos com groselha, são uns queridos.
Agora uma pergunta de cariz pessoal algo melindrosa, é verdade que rompeu o seu enlace amoroso com o boneco da Michelin?
Não quero falar nisso, puta que par…. esse magricela de mer….!!!!
O que acha de Boticelli?
O melhor pintor de anorécticas de todos os tempos.
Conhece alguma coisa da cultura portuguesa?
Sim é uma cultura fascinante, é rica e gorda.
Que anda a ler neste momento?
Schnitzler, os aforismos.
O grande mistério que gostaria de descobrir?
É mais uma pequena curiosidade, gostaria de descobrir o teor relacional de Rosa Botero com os anões.
Relativamente à sua performance aqui no Serralves em Festa o que é realmente o espectáculo Cona Gorda?
Foi uma ideia que eu tive antes de me separa do meu último casamento com um lutador de sumo, antes de eu o deixar em lágrimas ele disse-me que eu era a cona gorda dele
Vindo dum homem que eu amava essas palavras nunca me deixaram e pouco depois ele morreu esmagado no ringue. Sempre lhe disse para ele comer mais mas era um pisco, e pagou por isso. Basicamente Cona Gorda a peça é o diálogo entre mim e o fantasma dele.
Projectos futuros?
Amar comer ser feliz e criar.
No plano artístico pretendo fazer uma peça de cariz vingativo e pessoal contra o filho da pu… do Michelin, esse cabr….
Pretendo ainda retomar a terapia relativa ao mal que me aflige: o sindroma de tourette.
Obrigado pelo seu tempo e simpatia.
De nada seu cabr…de mer…minetei…

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Serralves em Festa 09


Os dez, vinte anos de Serralves pelo olhar atento de Serafim Ogro fotógrafo de ocasiões, vulgo casamentos e baptizados. Algo lhe captou o olhar nesta catita e pouco formatada beldade.

sábado, 30 de maio de 2009

Epifania ao amanhecer




Vi um gatinho a miar numa sardinheira
Ouvi um gaio assobiando numa mansarda
Senti um anjo a pairar sobre estrumeira
Cheirei o pio duma abetarda
Vulgares são todas as coisas mesmo as raras
Só Deus é Único ao inventá-las.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

STAR TREK KLINGONS MUSIC VIDEO

sábado, 16 de maio de 2009

Alfredo Marceneiro - Cabelo branco é saudade

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Mostra de Autores Portugueses Grandes


Ousei então com suave e esquinado olhar percebe-la no meio da banheira com a touca metida nas orelhas como uma sereia de peitos vivos. Tudo começou a ficar molhado conforme ela se contorcia a dançar uma música oriental e atirava a água para o chão que agia como o mármore age, isto é, mantendo tudo onde estava.

Vou a banhos!, Gertrudes Triba D´Ista, Edições Vers le Coni, 2009


Um dia tão lindo que dá vontade de sair de casa com o último livro da Júlia Pinheiro e ir para o parque receber a grande natureza levar uma merenda partilhá-la com outras pessoas, parece um falso verão índio difuso de pasteleria sensível e furnida e o verde primaveril. O colorido das flores naturais manchados com uma espectral e colorida roda psicadélica. Estonteante. No fim do lanche quando já sentirem o peso das vitualhas nas entranhas dirijam-se à mata e com as páginas do romance aliviai vosso cú de remansos de merda folículos de festim. As páginas jazem entre os verdes matagais o seu branco tingido por restos que estrumariam a terra não fossem desviados para tão vil fim.

O quadro português, Bergantin Marmota, Edições Vers le Coni ,2009

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O que é ou não é um poeta...

Tema do Clube de Leitura: O que faz um poeta?

Não poderia haver pergunta mais difícil a formular do que o que um poeta "faz". Questiono-me quantas vezes porque é que não se lê mais poesia, se será pelo seu carácter pessoal e próprio de cada autor, se a poesia assusta porque confronte com alguma espécie de verdade inicial, se é por encerrar e desvendar segredos, se se trata de exigir reflexão, se será por ser votada à incompreensibilidade. Nada disso pode ser.

Na poesia de Ana Luísa encontro música, encontro alma, encontro uma linguagem que transcende a significação das palavras; na poesia de Daniel Maia encontro mística, encontro revelação, encontro uma humanidade por inteiro entregue ao seu infortúnio; na poesia de Jorge Reis Sá encontro emoção, encontro a tristeza de um outro que sofre uma ausência que qualquer pessoa sente, sentiu e sabe o que é.

O que é ser poeta senão ter estas capacidades de ser música, de ser transcendência, de ser outro que qualquer um sente. O arrepio na coluna que ensinava Nabokov, ser transportado para outro limiar de encontro com o indefinido. Com os poemas de Sophia sinto assim a nostalgia da casa ausente que não é de ninguém. Talvez seja sentir, talvez seja pensar, talvez seja o tacto do que é inatingível. O que um poeta nos dá por vezes é companhia, o preenchimento de um silêncio e acho piada que os poetas se sintam tão profundamente sós por vezes, se soubessem que todos nós nos sentimos profundamente sós às vezes.

É o sonho. Lembro-me do João como em tantas ocasiões, que era um poeta da vida corrente, porque tinha um sonho irreal, havia quem o criticasse acerrimamente, havia quem o insultasse, havia de tudo. O seu sonho concretizou-se no final de certo modo mas depois de morto e ele sabia tudo o que iria acontecer só não sabia se ainda fazia sentido.

O que não é um poeta? Um poeta não é um déspota, nunca poderá ser um adepto do despotismo esclarecido, que apenas vingue as suas ideias e que todos os outros estejam de acordo, não pode silenciar vozes, não pode achar prazer em magoar.
Porque tudo o que fazemos recai sobre nós, não quer dizer que se seja melhor ou pior escritor por causa disso, mas faço votos que a escrita, a vida, o que for não vos faça perder a vossa humanidade, porque enfim não acho que seja requisito essencial para escrever, mas se fosse então não valeria a pena. Ou valeria?

sábado, 9 de maio de 2009

Viva Vasco Granja! (bonecada Vs catequese (crónicas da infância))



Vasco Granja foi um dos grandes amigos da minha vida de criança até começar a ter borbulhas e começar a sentir tesão pelas empregadas fabris que orlavam a casa dos meus pais de meias e chinelos com fardas que não raro aprofundavam as curvas da espécie quando comprimidas. Isso era à semana. Ao sábado havia bonecada e catequese.
Mas voltemos atrás a Vasco Granja, esse homem que a esta hora deve estar no céu rodeado de estranhos e abstractos desenhos animados checos e de Droppies a ter uma conversa com Tex Avery sobre a amabilidade dos anjos de só falarem português e inglês para cada um deles. Do que me lembro até certa altura havia uma certa falta de recursos da minha mãe para que eu fosse á catequese quem em certa medida era o Nemesis do Granja nas tardes de sábado. No entanto, fomos construindo entendimentos que me permitiam faltar de vez em quando desde que não deixasse de ir ter com Jesus numa base regular.
A arte de Vasco Granja em escolher e apresentar desenhos animados era um oásis de imaginação numa televisão primitiva pouco apetecível para as crianças. Não sei o que aconteceu á minha catequista que era boa mulher embora um pouco tosca mas de grande coração, provavelmente também já morreu deve estar no céu a falar com os anjos sobre o custo da redenção ou outra coisa meia tosca tipo a diferença entre a orelha colada por Jesus no soldado e a orelha de Van Gogh, que deve estar ao lado resmungando que se o tivessem deixado podia ter dado um bom padre.
Toda esta bizarra combinação de elementos falsamente auto-biográficos e sacristia-cartoon para homenagear a figura singular e amável do homem que semeava bonecada pode parecer estranha, mas se quiser coisas coerentes vá pró Abrupto! Este é um blog de ideias híbridas e conteúdos avulsos e incoerentes. Viva Vasco Granja!


Nota. Quando digo este é um blog pode parecer ligeiramente esquizofrénico visto praticamente só eu escrevo aqui. E além de parecer é mesmo.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Ajudem-me, amiguinhos!

Um dia envolto em dura parcimónia. Uma escada aberta por uma cisma de velho doido que tendo ficado paralisado pelos ventos tardios do amor ali jazia na cadeira de rodas como um vulgar lírio com a sua camisa amarela metido no vaso com rodas. O velho general tinha mandado abrir aquele acesso ao sótão para poder brincar com a neta, mas nunca tinha ido lá porque entretanto entrevara, vítima dum alongamento ousado da doença volante que o corroía. Assim Alice tinha que vir brincar com o velho para o seu apertado escritório onde só havia livros e estatuetas. Na sexta-feira Ermengarda tinha tido um avc não sem antes ter lido ao general um excerto de histórias de cavalaria e de lhe ter feito o broche de quarta-feira. Na quinta-feira sentiu-se mal, foi-se deitar e morreu. Antonino tinha ficado sem a criada duma vida e isso entristeceu-o. Começou a recusar a comida e refugiava-se no retiro para ouvir canções líricas. A sua dieta resumia-se a broa de milho peixe cozido e álcool. O primo Gerôncio mudou-se para a casa e veio fazer as vezes da falecida pelo menos até que se arranjasse outra criada para servir o rodinhas. O primo Gerôncio era um decorador de interiores e pintor amador que nunca tinha vivido com ninguém, mas era uma boa alma e tinha grande apreço pelo general que tinha salvo a sua mãe mais do que uma vez de situações difíceis, dado ser uma cinquentona com necessidades de botox e compras de roupa e pouco dotada de plástico, divorciada dum ex-toxicodependente que mal conhecia Gerôncio.
Antonino estava deprimido os olhos pareciam acinzentados pantanosos absorvidos por tudo que há de restos nos pântanos o entulho do lodo. Ficavam mais leves quando já estava bebido. Era um elefante velho e já pronto para a longa marcha rumo ao depósito de carcaças trabalhadas a marfim. O barulho de pequeno brinquedo da cadeira de rodas eléctrica fazia um todo com a carne do entrevado. Foda-se, parecia um cyborg.

General Cyborg, romance, MR, 2008

Este é o princípio do meu livro que está quase pronto. Alguém tem alguma ideia para onde posso mandar esta merda? (respondam por e-mail, por favor)

177 Páginas de prosa viciada em desapego total pelo lógico comportamento dos personagens. Recurso ao adjectivo fácil, à manha à pouca-vergonha e falta de respeito. Target de leitores possível: toda a gente com problemas emocionais ou mentais. Gente desequilibrada que ainda não tenha aderido ao feng-shui ou ao yoga, crentes, fãs de ficção-científica, renegados psicanalíticos, nativos norte-americanos, donas-de-casa em Xanax, fãs de playstation, e todas as espécies não leitoras. Até agora a população não-leitora que mostrou mais entusiasmo com a leitura foi um grupo de ornitorrincos dum jardim zoológico do norte da Europa. A primeira página deixou-os loucos de contentamento. Perfil do editor: meia-idade loira de olhos escuros e com disponibilidade para adiantar dinheiro sobre edições futuras, se for do planeta Duplus e tiver vagina dupla considerarei isso uma vantagem.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Poema final



Aos Amigos

Porque procuro no poema final e definitivo a face de Deus,
todos os versos que escrevi me hão-de condenar ao inferno.

Jorge Reis-Sá, Biologia do Homem, Quasi, 2004


Ao Inferno não digo, rapazola, mas és capaz de passar algum tempo no Purgatório, não por estes versos mas por todos os outros que de forma tola e melíflua soltaste neste mundo. Mas não te preocupes, depois de chateares algumas almas penadas, S.Pedro virá para te levar ao Paraíso onde poderás ver finalmente Deus. Devo no entanto avisar-te que Este estará de costas ouvindo chalaças de Tchecov sobre o portuga que meteu a padaria na sacristia. Tchecov em horrenda chacota conta anedotas referindo-se a ti como o poeta da broa mística e do folar salteado à luz da manhã. Só uma coisinha, durante os tempos de Purgatório poderás contar com cargas diárias de porrada administradas por Rimbaud que está insatisfeito com o Purgatório e quer ir para o Inferno a todo o custo para beber uma cerveja e encontrar outros contrabandistas e velhacos em geral.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Cyrano de Bergerac Trailer (1950)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Variação onírico-automática sobre o romance No Silêncio de Deus de Patrícia Reis



E então à tardinha fui parar a uma coffeeshop perto da Leidseplein e fiquei lá a beber um Chocomel. Grandes nuvens de fumo saíam de todos os lados. Pequenas fábricas de eternidade passavam os vulcões pulmonares e projectavam-se no vazio da sala fechada pelo tecto. Pedi uma abrótea com maionese de toranja. As pessoas que não conversavam faziam puzzles ou liam o jornal. Fui ao balcão e a meio a abrótea fugiu pela porta fora. Quando voltei estava sentada na mesa a escritora Patrícia Reis com uma ampulheta na mão. Tinha uma cara linda e podia sem custo fumar á chuva. Lá fora o duro padrão do céu augurava uma crucificação à Gauguin. Num pé a escritora tinha um soco holandês e no outro uma sandália árabe. Estava acompanhada por um cogumelo e um homem mais velho: Boa noite, sou o senhor Ayahuasca- apresentou-se ele. Foram vocês que assustaram a abrótea. – Não, respondeu ela com a elegância egoísta das beldades. Resolvemos ocupar a mesa antes que a maionese fugisse concluiu a escritora.

Todo o cenário desaparece e fico sozinho com Patrícia Reis. Entro em automático.

No livro tudo me faz lembrar a sequência da plantação francesa no Apocalipse Now. Os personagens parecem fantasmas ou zombies ou golems. A prostituta não está calibrada á medida do escritor. A jornalista, que teima em não sarar migra como um pequeno almoço de mesa em mesa como uma alma danada num banquete de bruxas. O romance tem um alvo específico, mas na sua construção age como um sniper oportunista. A maravilha do mundo são as pequenas confusões, as enguias eléctricas e aleatórias da natureza humana. A abrotea e a maionese de toranja são um acto falhado relativo ao efeito madeleine de Proust, o rateiro.

Patrícia Reis dá uma risada e responde - desculpe mas o meu nome é Cirano de Bergerac.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Susan Boyle (beije-a, Mr. King)



Elegante como um peru de Natal, afrontou com bravura centenas de pessoas que começaram por se rir de forma vil e abundante. Quando daquele corpo original lhe fugiu a voz, estarreceu e comoveu . Não é que venha daqui a paz ao mundo mas é um violento pontapé nas partes dos bonitinhos deste mundo extremamente feio. Solteira, nunca beijada, sozinha em casa e desempregada com um gato. E de repente vai ao Larry King. Tenho uma dúvida, no entanto, será que ela cantará pior ou melhor depois de ser beijada? De qualquer forma espero que tenha um bom primeiro beijo uma vez que esperou tanto tempo. Ou então ser beijada pelo próprio Larry King simbolicamente. Isso seria lindo e de extremo mau gosto como todas as coisas belas.

domingo, 19 de abril de 2009

Pele de mámore


Bom dia blog.

Espreito-te mas não falo contigo vai para um ano.

Foi tudo tão rápido; o curso, os escursionistas, tão deliciosamente diferentes entre si, o Mário Cláudio, as casas de banho em mármore, o jantar, as possibilidades; depois, a realidade. Tive saudades, admito.


Farto-me de viajar e no entanto não saio do sítio.

O mesmo clima pós aquecimento global. A mesma cidade invicta, vencida. O mesmo escandaloso contraste entre o que podia ser e o que é. O mesmo desânimo nas paredes, nos bichos e nos homens. Ainda a tua agenda quotidiana, a minha urgência. Que se foda a tua agenda quotidiana. Eu vou mas é tentar salvar a pele agora que não a tenho. Eu vou mas é fazer a barba.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Parkour Fúnebre



POR ENTRE OS MÁRMORES

O portão está aberto, entra. Sobe as primeiras escadas,
Um curto lanço, dois pequenos degraus. Segue depois pelo
carreiro de terra batida, apenas alguns passos até olhares
à esquerda, caminhares por entre os mármores. Desvia-te


das flores, não pises as vassouras que as viúvas deixam de
sábado a sábado. Vira agora para a direita e olha. Vê bem o retrato
a sépia pousado ao vento, debruça-te sobre a campa, reza.
E deixa-te com as flores, o portão sempre fechado.

Biologia do Homem, Jorge Reis-Sá, ed. Quasi, 2004


Em Por Entre os Mármores Reis-Sá ensaia a primeira tentativa do que eu chamo o poema-parkour ou se preferirem o poema –orientação. Outros nomes para este poema avançado seriam por exemplo Parkour Enérgico do Cangalheiro Saltitante ou ainda Parkour de Finados. Em poucas palavras, o exercício físico mistura-se com um revivalismo fúnebre. No próximo post debruçar-me-ei sobre o enigmático poema Dharma & Greg.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Avariação a Jorge-Reis-Sá


PELA MANHÃ O PÃO

Pela manhã o pão ou as bolachas com o leite
fundas na chávena. Tu e o jornal no
alçado, um trago de sumo sempre que
te via os passos, como se corresse, te seguisse.

O jornal ainda está na pasta como o deixaste
uma última vez, já os óculos o acompanham.

Mas o pão ainda se encontra à entrada da boca.

Biologia do Homem, Jorge-Reis-Sá, ed. Quasi, 2004


PELA MANHA O MOLETE

Pela manha o molete ou as cookies com o bagaço
sopas na xícara. Tu e o papagaio
á tiracolo, um sorver da zurrapa sempre que
te via a púbis, como se corresse, tece-me os guizos.

O papagaio ainda está empastado como o deixaste
uma penúltima vez, já as lunetas vão atrás dele.

Mas o molete ainda se encontra à entrada da boca
(e assim não tenho sítio para meter isto!)

Biologia do Cro-Magnon, Alien Taco, 2009

Na senda dos aprendizes do Renascimento ousei imitar um poeta Jorge –Reis Sá, aproveitando a maneira subtil como ele carameliza as palavras para redigir uma variação bruta e simplista que representa apenas o os meus sentimentos pueris e as idiossincrasias do meu humilde e profano dia-a-dia .Comecei a ler a Biologia do Homem e logo aos primeiros poemas me apercebi estar perante uma coisa fora do vulgar. Os poemas são tão maus que é minha convicção que este, o poeta, não reconheceria um bom poema mesmo que ele aparecesse vestido de poema com um letreiro a dizer sou um poema e a seguir o mordesse numa nalga. Estou com curiosidade de conhecer este poeta invulgarmente mau. E dar um abraço merecido porque eu tal como ele tenho instintos anti-poéticos, embora, felizmente para toda a gente, eu não escreva poesia. Todavia fiquei tocado por este livro porque em termos técnicos e viscerais é do pior que tenho lido. O poema Pela Manha o Molete é o corolário dessa experiência poético tenebrosa proporcionada pelo poeta Jorge Reis-Sá.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Se estiverem por aí


Escrevi e interpreto o espectáculo que terá a sua estreia amanhã dia 27 de Março - Dia Mundial do Teatro.
Muito do que pude fruir no atelier de escrita dos Sentidos, vem desaguar a este projecto.
Se estiverem por aí, se acharem que vale a pena, venham até á Póvoa de Varzim, eu estarei por aqui para vos dar a beber este momento.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Jelly Roll Morton - Wolverine Blues

segunda-feira, 16 de março de 2009

Nick Hick



Swamp People

For those who dwell in the swamp
There will be nothing but wheels
Wheels of shitty misfortune and flesh eating lotus
Tiny figures in the fast track
Lost soldiers turning their tongs
Sober garments stained by hunger.

Nicholas Hick

Nicholas Hick – Nasceu na Tasmânia em 1961. Cruzei-me com ele no sétimo encontro dos Criadores Invisíveis realizado em Torresmos de Latrão. Este poema pertence a um dos seus primeiros livros: Dundee Dandy. O mote de Nick Hick é “a existência é o que é, embora não exista.”

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Lago de canja selvagem



Ingredientes

Uma floresta com patos e gansos e lebres
Um pequeno lago sem peixes
Massinha de canja
Ervas aromáticas
Tom Jones ou Motorhead

Derrubam-se as árvores e colocam-se em gigantescas fogueiras para aquecerem caçoilas de cobre. Matam-se todos os patos e gansos e lebres da floresta. Tira-se toda a água do lago e distribui-se pelos cozedouros. Os animais esfolados e depenados põem-se a ferver para soltarem a sua gordurinha. Juntam-se as massinhas. Quando estiverem cozidos adicionam-se as ervas silvestres. No fim de saciados os convivas, seguir-se-á um concerto de Tom Jones ou Motorhead.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Manifesto Estúpido



1- Toda a realidade é uma construção. O real nunca se esboroa. É como uma lampreia a sugar o clítoris da vida: o minete eterno.
2- A doença da civilização é a procura dum significado total que não existe e provavelmente nunca existiu.
3- O melhor da vida é respirar. Já o pior é o seu inverso.
4- Quando um cão saliva ao ouvir uma campainha, quando o elefante toca o sino, isso quer dizer que tanto o cão como o elefante estão aptos a escrever.
5- Os papagaios não sabem o que dizem , mas não aprendem sozinhos.
6- Deixar cair as cuecas pode ser um risco: existem espécies marotas que gostam de sítios quentes e húmidos.
7- O autor deste manifesto está muito longe da realidade. Por não saber onde está remete-o a si leitor(a) para o primeiro artigo.



Nota: como tpc levarei uma receita de arroz de lampreia que está na minha família desde a Idade do Bronze.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

gooble gobble

domingo, 11 de janeiro de 2009

Bolo insecto e cozinhado poético

Bolo-insecto. Recordais do texto que escrevemos, imaginando que um dia acordávamos um determinado animal?

Estamos a cozinhar a ideia de um trabalho conjunto sobre os cinco sentidos. Se estiverem interessados, enviem o vosso nome, mail e contacto telefónico para paulajoana.santos@gmail.com.

O trabalho tem o limite de entrega de 4 de Março e o formato é livre pode ser um poema, um texto poético, um texto filosófico, ou um pequeno conto... a abordagem do tema também é ao vosso critério e não existem limites à imaginação...
Bon apetit!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um Mundo Catita - As minhas coisas favoritas

O sweet and pretty speaking eyes,
where Venus, love, and pleasure lies.
Petronius (roman smart fucker)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Kol Nidrei

Trinta e quatro segundos antes, a luz irradia de todas as superfícies visíveis. O asfalto de cimento com partículas de quartzo fluoresce mimetizando o verde do arbusto de sempre e o amor perfeito vestido de malva, abandonado no interior do caderno, página esboroada de um tempo nulo, como o relapidar das cordas fere em cada final de acorde.

O valor da vida não é reconhecido, não ali, não naquele posto onde os actos são previstos pela repetição. O ódio em surdina, o isolamento total, a rotina coerente marcada por um metrónomo doente, lapso entre o tempo cronológico lento e o tempo mental acelerado, um renascer a cada início de partitura, bastava que fosse capaz de me devolver a ordem das coisas. A normalidade surpreende, os simples risos, discursos, diálogos entre as pessoas de que não descodifico significados, atordoado pela significação que não atribuo, prenúncio de uma possível surdez.

O pensamento deixa de ser retido, desfoque do existente, escape da normalidade, abstracção para planícies de searas onde apenas se ouça a circulação do vento por entre trechos de músicas que se repetem, não no rolo fotográfico na memória, mas no veículo da mente.

Um novo complexo começo que sobressalta, a tristeza dos teus olhos que me assusta, que não posso compreender, a música distancia-se no seu vibrar convicto pela imutabilidade do teu olhar. Talvez o que sinto seja nada, apenas a admiração perante a tristeza da memória que não se quer recordar, das recordações que são penosas, escala de emoções que nos constrói. Se a vida é efémera, recordar o que imaginamos é projectar o sonho na vida. E isso é tudo, talvez não o suficiente.

Sucede-me ficar sorumbático durante dias, atordoado pelo desejo, aniquilado pela premência de futilidades diárias a que tenho de comparecer, recluso de uma realidade, castrado pela melodia e o meu sentir contrastando com essa pungência vital torna-se alvo de chacota de mim mesmo.

A tua caneta abraça a folha, desbridiza a sua essência e sinto-te triste, como se quisesses estar noutra parte mas sentisses que não houvesse outra parte para estar que te fizesse sentir menos só. Se pior que a solidão acompanhada, é a solidão sem perspectiva, pior é a tua solidão que não sei definir.

Não pensar é impossível e pensar é sofrer, a matéria dissolve-se nessa última nota triste, uma escala abaixo. Se sinto o teu sofrimento não vivo isolado, os vectores são quaisquer, e se mais do que um se opõe ao movimento, a corrente que electriza viaja num sentido único.

Pianinho, pianíssimo, perda de toda a convicção, perda de toda a esperança, perda de tanto que amamos e contudo a possibilidade, a renovação, outro universo de ser e de acreditar. Estou despido, encostado ao lancil do passeio, um cartão encobre-me o corpo, a fisicalidade é invisível pela obstrução da visão por um carro. Fumo, tremo, passa alguém que nem se apercebe da minha presença. A concentração sensitiva deixa-me em paz, liberto do narcisismo, do sadismo e da indiferença, estou despido, mas tenho paz.

- 21 de Maio de 2008


Escrevi este texto poético no Atelier de Escrita sobre os cinco sentidos. Na altura, penso que estaríamos no sentido da audição, porque Mário Cláudio colocou a música do Kol Nidrei, como mote de inspiração à escrita.

Enquanto escrevia o texto, escutei a música muitas vezes, até a conseguir ouvir internamente; estive horas a repetir cada um dos trechos na aparelhagem, e a escrever o que cada trecho me inspirava, porque a música se adiantava à minha capacidade de sentir e escrever; depois fiz uma compilação.

De qualquer forma, enquanto escrevia pensei muitas vezes numa pessoa específica, o que espero que não seja ofensivo, só que na aula seguinte quando chegou a altura de ler o texto, ela não estava e por isso não ouviu o texto que lhe era dedicado; li o texto, mas ele nunca chegou ao seu destinatário.

Era apenas para o ouvires ou leres, mas não para saberes que te era dedicado, mas penso que mais vale tarde que nunca, e que não faz mal que o saibas. Na altura, escrevi-o a pensar nos últimos meses, de conhecimento, amizade e partilha de escrita e leituras, continua a ser uma dádiva para ti, pois que nunca estamos tão sós como nos sentimos.

"Kol Nidre (Aramaic: כל נדרי) is a Jewish prayer recited in the synagogue at the beginning of the evening service on Yom Kippur, the Day of Atonement. It is written in Aramaic, not Hebrew. Its name is taken from the opening words, meaning "All vows".
Kol Nidrei has had an eventful history, both in itself and in its influence on the legal status of the Jews. Introduced into the liturgy despite the opposition of some rabbinic authorities, attacked in the course of time by some rabbis, and in the nineteenth century expunged from the prayer-book by many communities of western Europe, this prayer has often been employed out of context by some to claim that Talmudic Jews cannot be trusted.[1]
The term Kol Nidrei refers not only to the actual prayer, but is also popularly used as a name for the entire Yom Kippur evening service." - Wikipedia, enciclopédia livre


Kol Nidrei - Max Bruch interpretado por Guilhermina Suggia



Kol Nidrei - Max Bruch op.47 interpretado por Jackeline du Pré

Natal? Manuel Sérgio

Porque só agora li o desafio, fui procurar um poema que decorei na escola com nove anos e do qual ainda me lembrava em parte.

Natal?


Enquanto a chuva

Escorrer da minha vidraça

E furar o telhado

Daquele farrapo de homem que além passa

Enquanto o pão

Não entrar com a Justiça

Lado a lado

Mão a mão

Nem Jesus vem

Andar pelos caminhos onde os outros vão

Um dia

Quando for Natal

(E já não for Dezembro)

E o mundo for o espaço

Onde cabe

Um só abraço

Então

Jesus virá

E será

À flor de tudo

O RedentorUniversal

(Quando o Homem quiser

Será Natal)

Manuel Sérgio

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Novo Ano! Pum, pum, pum!

Que se esgotem nas prateleiras, os buriéis,

Nas embarcações, as canetas e os papéis,

Que se esgote de mim o amor e o bem perfeito,

Que se esgote deste mundo, o meu sopro,

Para ordenação de cada coisa em certo feito.

Pela via de uma indignação contida

Que já não me é conferido direito de possuir,

Extravassa uma memória dolorosa,

que se não seja saudosa, seja daninha,

que se não seja nostálgica, seja triste.

longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis da tua ausência.”

- Fernando Assis Pacheco

Para aqueles que nada chega jamais,

Famintos e esfomeados que arrancam a pele:

às dentadas, às golfadas, sorvendo o oxigénio.

Não sabem, não, não sabem parar!

Não sabem compreender o desespero,

De quem agridem, não os poder suportar

Mas aceitar por ter desistido do sonho.

Não sabem, não, não sabem parar!

Pum, pum, pum!

Peço-lhes baixinho, e aos berros e aos gritos,

E sem falar e por expressões lhes digo.

Mas não sabem ver, não, não sabem!

E explico por gestos e por palavras e por escrito,

Mas não sabem pensar, não, não sabem!

O meu grito só se faz ouvir no silêncio de mim

E grito bem forte: Alto! Basta! Já chega!

Pois não consigo suportar mais aventesmas

Mesmo o que jurei que contra natura suportaria,

Para provar a mim própria que era capaz.

Desisto! Pum, pum, pum!

Aceitar uma longa cadeia de um passado triste,

Talvez por promessa de um futuro novo,

Grito mais alto ainda: Alto! Basta! Já chega!

Na terra longínqua que embelezei para mim.

Minha! Egocentricamente minha!

Hipocritamente minha! Mas minha! Só minha!

Onde qualquer vislumbre externo nada é mais

Do que o falso sentimento de pertença a lugar algum.

Em que qualquer partida é partida,

Mas qualquer chegada é ilusão.

Não consigo suportar mais aventesmas,

Para provar a mim própria que sou capaz.

Desisto! Pum, pum, pum!

Para aqueles que nada chega jamais,

Famintos e esfomeados que arrancam a pele,

Às dentadas, às golfadas, aos arranhões,

Que levem tudo o que querem! - é o que peço

Mas que me deixem ficar!

Pum, pum, pum!

Um pouco mais de humildade, se faz favor!

Era preciso, um pouco mais de humildade!

Para os senhores e as senhoras da sociedade,

Para os falsos que gostam de se passar por amigos,

Para aqueles que não sabem respeitar a dignidade,

Um pouco mais de humildade!

Excelentíssimos senhores doutores,

Senhoras porta-voz,

Meninas virtuosas do passado e futuro presente,

E demais elementos do elenco que se identifiquem,

Um pouco mais de humildade, se faz favor!

Prefiro que se esteja menos faminto, menos esfomeado,

Talvez queira assim, porque não tenha mais para dar.

Prefiro que não se esteja sequioso e alucinado,

Porque também posso ter sede e também tenho medo.

Prefiro simplesmente estar em paz,

Sem famintos, esfomeados e sequiosos em redor,

Que me bebam a alma e me esfolem a carne.

Pum, pum, pum!

Um espaço de paz em meu redor.

All is full of love!

Onde não me tentem ludibriar com maldade,

Onde respeitem o que tenha a dizer,

Onde me saibam ouvir sem ficar incomodados.

All is full of love!

Onde saibam respeitar a diferença,

E aprendam a sorrir, a partilhar, a sentir,

Sem egos de enormes dimensões, sadismo e desprezo,

Que abafam o riso das flores e a dádiva da esperança..

All is full of love!

Sem ironias despedaçantes

Velhos de corações vadios

novos de corações vazios,

E eu totalmente só, e só porém.

All is full of love!

Mas, prefiro simplesmente estar em paz

O meu espaço de liberdade sem fingimentos

Sem pretensões, sem hipocrisias, sem falsos balões…

Pum, pum, pum!

Esvaziei-os a todos com um alfinete de dama.

Não fico a sorrir, prefiria não ter escrito este poema!


All is full of love! tem uma versão em que é Love is all around me!, sendo retirado da ideia expressa pela Bjork (vide post anterior)


Bom Ano!

Não me acredito que estamos em 2009!!!!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

All is full of Love




You'll be given love
You'll be taken care of
You'll be given love
You have to trust it

Maybe not from the sources
You have poured yours
Maybe not from the directions
You are staring at

Twist your head around
It's all around you
All is full of love
All around you

All is full of love
You just ain't receiving
All is full of love
Your phone is off the hook
All is full of love
Your doors are all shut
All is full of love!

(Bis - quinquagésimo)

- Bjork

Uma excelente música de Natal, potente e linda, para ouvir pausada e calmamente, para melhor apreciar a sua inequívoca melodiosidade.

Boas Festas e Feliz Ano Novo!

O Mendigo

Estou vazio, saturado de tudo e de todos. Estou farto do síndrome de estupidez que atinge a maioria da população e do síndrome da salvação alheia que atinge a restante. Encontrava-me nestes devaneios enquanto a Ana se despia.
Quero observar. – disse-lhe.
Ambos tínhamos um acordo de colaboração tácito, ela considerava-me um grande sacana, eu considerava-a uma boa puta, ambos sabíamos que as pessoas eram essencialmente más, com uns laivos de santidade de permeio.
No final, os seus olhos verdes e cabelos escuros fixaram-se em mim, o seu corpo desapareceu, resultado da cegueira de concentração do que me faz sofrer por não poder ser meu e qual anjo da morte perguntou:
- Está quase no termo da hora, o que queres fazer?
Fui tomar banho, apanhei o intercidades para Lisboa, cidade que me causa um misto de náusea e de agrado. Odeio o seu canto mórbido de saudade a quem parte alegremente, mas se a paixão se detém nos corpos enamorados, o amor detém-se nos espaços. Lisboa é um espaço do meu esquecimento compulsivo por coacção, glande da minha memória, vernáculo de outro país. De forma que não me decido se a odeio ou se a amo, por isso decido que a amo tanto como a odeio e dividido nunca sei o que sinto, apenas sei que o sentimento que lhe dedico é forte e ambíguo.
Chovia. Fui abrigar-me no interior de um banco na zona de acesso aos multibancos, eram horas de começar o trabalho, retirei uma moeda do bolso do casaco e sentei-me.
Estou vazio, saturado de tudo e de todos. Estou farto do síndrome de estupidez que atinge um quarto da população adulta e do síndrome de salvação que atinge o outro quarto.
Sinto-me mal como todos os dias, não consigo falar com ninguém, não consigo encarar ninguém, a solidão é imensa, a revolta vai mirrando.
As pessoas entram e saem do banco e olham-me com medo, ou com desdém ou com indiferença.
De nada serviria explicar-lhes que sou médico, que digo?, que era médico, que perdi a minha mulher, que o meu filho me internou no CRATO e me visitava uma vez por mês. Nem eu me acredito na outra vida que tive e quando a conto parece mentira como se a tivesse esquecido, parece que insiro factos que não aconteceram e suprimo outros, de que me lembro, mas que se assemelham irrelevantes, apesar da importância que tiveram na altura, como se eu tivesse deixado de ser eu e aquele que eu fui tivesse sido outro.
Não sinto falta dos meus doentes, nem da minha profissão, nem da minha mulher e não conheço o meu filho. Sinto-me vazio, sinto que a minha vida passada é apenas um recurso, um material tal qual o meu corpo e qualquer ínfima parte do que considerei o meu ser.
Tenho vergonha, deixei de ser gente, dedico-me à auto-comiseração vazia, aos copos, aos meus pesadelos mais e mais frequentes, com bichos que estão presos no nariz e que extraio com uma pinça, centopeias que acordo a cuspir.
De qualquer modo, canso-me de mim mesmo, de me ouvir dentro do meu cérebro e do silêncio que me devolva a esse inferno.
Encostados ao meu ombro estão os seios do anjo da morte que me segreda:
- Está no termo da hora, o que queres fazer?
Entra alguém cujo cartão não funciona e que coloca outro euro ao lado do meu para a viagem de regresso à bebedeira dos sentidos.
Sinto-me ínfimo, quando a coragem me permite encarar o meu benfeitor, ele tem a pergunta –como te sentes? Expressa no sorriso.
Não pedi nada, agradeci com o retorno do olhar o seu gesto, não eram necessárias palavras para que fosse entendido.
Não sinto a falta dos meus doentes, nem da minha profissão, nem do meu filho e a minha mulher morreu. Sinto-me vazio, sinto que a minha vida passada é apenas um recurso, um material tal qual o meu corpo e qualquer ínfima parte do que considerei o meu ser, como se eu tivesse deixado de ser eu e aquele que eu fui tivesse sido outro; é uma espécie de derradeira honestidade comigo mesmo, saber que traí tudo o que amei, que deixei de amar tudo o que amava e que encaro o rastejar dos dias com a liberdade de não ter qualquer fim, de não ter qualquer projecto de vida e de ser um nada.
Sou um egoísta, sacana e cabrão, mas não pedi, recebi agradecido a dádiva da salvação do laparoto. Se sou hipócrita? Sou. Não quero ir viver no seio da natureza numa comuna de hippies a cantar o Peace and Love, enquanto semeio batatas. A única fidelidade que tenho é ao dogma de não ser fiel a nada.


Texto escrito com o tema de Hulmidade - Atelier de Escrita - Coordenação Dr. Mário Cláudio - Dez de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Poema de Natal



Neste Natal

Menina Criança

Vou vestir

À minha alma

Aquele vestido azul

De miosótis

Na cor embranquecido

O sonho de uma infância

No tempo

Acontecido


Regressar à lareira

Acesa

Pela força dos anos.

Aquecer quantos enganos

Para a vida esconder

Enquanto vão chegando

Todos os que partiram

E se vão abraçando

Em abraços sentidos

Os mortos

E os vivos.


A mesa de consoada

Está abarrotada

De afectos

De saudades

Silêncios escondidos

Lágrimas e sorrisos

Partilham-se verdades

Abraçam-se gemidos.


Até que o Deus Menino

Vem deixar no sapatinho

O amor que não tem tempo

Nem idade

A Paz

A Fraternidade


- Elsa Braz

Imagem: Chandra image of Sirius A and B
This Chandra X-ray image offers a new view of the Sirius star system located 8.6 light years from Earth. This image shows two sources and a spike-like pattern due to the support structure for the transmission grating. The bright source is Sirius B, a white dwarf star with a surface temperature of about 45,000 degrees Fahrenheit (25,000 Celsius), which produces very low-energy X-rays. The dim source at the position of Sirius A — a normal star more than twice as massive as the sun — may be due to ultraviolet radiation from Sirius A leaking through the filter on the detector.
In contrast, Sirius A is the brightest star in the northern sky when viewed with an optical telescope, while Sirius B is 10,000 times dimmer. Because the two stars are so close together Sirius B escaped detection until 1862 when Alvan Clark discovered it while testing one of the best optical telescopes in the world at that time.
The theory of white dwarf stars was developed by S. Chandrasekhar, the namesake of the Chandra X-ray Observatory. The story of Sirius B came full cycle when it was observed by Chandra in October 1999 during the calibration or test period.
The white dwarf, Sirius B, has a mass equal to the mass of the sun, packed into a diameter that is 90% that of the Earth. The gravity on the surface of Sirius B is 400,000 times that of Earth.
- Nasa Chandra X-Ray Observatory

A Paz sem vencedor nem vencidos

Dai-nos Senhor a Paz que vos pedimos
A Paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos destes seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça
Dai-nos Senhor a Paz que vos pedimos

A Paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos o Vosso mandamento
Para que venha a nós o Vosso Reino
Dai-nos Senhor a Paz que vos pedimos

A Paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a Paz seja de todos
Dai-nos a Paz que nasce da Verdade
Dai-nos a Paz que nasce da Justiça
Dai-nos a Paz chamada Liberdade
Dai-nos Senhor a Paz que vos pedimos

A Paz sem vencedor e sem vencidos

- Sophia de Mello Breyner


Proponho que publiquemos poemas ou textos de Natal, quer sejam nossos quer sejam aqueles que preferimos, de autores de nossa escolha. A publicação pode ser daqui até ao Dia de Reis, pois quer se acredite ou não, quer se fique mais feliz ou mais triste, mais solidário ou mais fechado, para todos esta época é diferente de qualquer outra época, mesmo que se finja que não.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

À procura do tempo fodido



Humilhação pré-puberdade

Eu devia ter á volta de oito anos. Andava em folias com o resto dos miúdos no pátio da escola. Estávamos a jogar ás escondidas. Procurei esconder-me atrás duma porta que dava acesso a uma casa de banho decrépita que na altura se encontrava em obras. Infelizmente não fui o único a procurar refúgio na recatada cagadeira que ficava por detrás da porta meia coberta por uma bela buganvília. Pedro, o Bucha, um rapaz com problemas de peso tinha escolhido esconder-se lá tal como eu. As carnes fartas do Bucha em plena correria empurraram a porta e fizeram-me aterrar na sanita onde fiquei preso. O Bucha ao reparar que eu e a retrete éramos agora uma unidade correu por ajuda. Por esta altura, enterrado na cerâmica comecei a vislumbrar os olhinhos dos outros miúdos como penas de pavão incrustadas na ramagem da buganvília. Estavam entre o riso e a surpresa num ambiente de pré-galhofa generalizada. Veio uma freira que me passou uma mão pela cabeça e passado um bocado voltou com um brutamontes que desfez com um maço o enlace carne-loiça. Encaixei dois cortes no cu e um ódio aturdido pelo Bucha. No entanto se posso apontar o pináculo da humilhação foi passar, meio a mancar pela turba ululante com as calças ensanguentadas e restos de merda que datavam de antes das obras. Enquanto carregava o meu pequeno e fétido corpo pelo pátio compreendi, e lembro-me disso distintamente, compreendi que teria sido muito pior se tivesse caído de queixo ou enfiado lá a cabeça. Outros teriam provavelmente tirado ilações sobre o universo. Eu não, eu estava só na merda.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Ilha dos Corações Partidos - A Outra Parte

Tinha ficado três dias e três noites sentada junto às marés. recebia a água na ponta dos dedos dos pés como alimento. Sempre fora persistente, e também esquiva às tarefas diárias impostas pelos ilhéus. Recebia a água e vertia os olhos na imensidão, certa de que o momento estava para chegar. Na sua curta vida aquela era a única praia que conhecia, tinha nascido ali, guardava no peito a herança de todos os ilhéu, um coração que mal brotara, já de si vinha despedaçado. Suspirava junto às árvores, e sonhava... como sonhava!... Sempre o mesmo e colorido sonho, a de um homem só com um olho, de mãos macias e rosto encovado, que por entre os rochedos, por entre as águas e por entre a multidão chegava finalmente à ilha para colar todos os pedaços da sua herança despedaçada.
Ao fim dos três dias, avista ao longe a multidão que se agita. Surgira da bruma o rosto mais belo que alguma vez vira. Ao fim de algum tempo, o rosto e o seu corpo de homem afastam-se da multidão, caminhando para ela. O seu coração fragmentado sentiu-se a tremer, e as suas pernas receberam ordem de despejo. Correu a esconder-se no mato. Deixou que os olhos não perdessem a figura de vista, bebeu-lhe o corpo, bebeu-lhe o passo, bebeu-lhe o olho, aquele único e grande, que os seus sonhos lhe tinham mostrado entre bocejos e suspiros.
Ali se deixou, tremendo e chorando por esse sonho acontecido.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Ilha dos corações partidos III

A maré começou a vazar retirando o manto marinho ao homem no cimo da rocha. O zarolho ziguezagueou fausto de exausto e os locais apressaram-se a trazê-lo para a caverna. Era um grande buraco na rocha na linha da praia com a selva que lhes dava abrigo. Trouxeram-no para cima de uma fogueira e deram-lhe porco com ananás numa folha de árvore. Depois do repasto houve muita galhofa e até algum despudor quando os locais, numa brincadeira de crianças grandes, tentavam acertar sucessivamente com puré de raízes no buraco onde havia habitado o olho do zarolho. No fim o visitante e o que parecia ser o líder da comunidade, um velhote, deslocaram-se para aliviarem a tripa e segundo o velho para fortalecer a terra das ilhas.
- Cagamos sempre aqui. Cada um tem a sua área e assim ajuda-se o lustroso solo. O zarolho acenou. Depois voltaram. Na caverna já todos tinham adormecido, mas o zarolho e o velho continuaram a conversar.
- As portas para o lado de lá fecharam-se. Não há mais ninguém. – Confessou o homem ao velho sem ponta de emoção.
- Bem, então precisas de um sítio para te instalares. Escolhe um pedaço da caverna e depois veremos para que tens jeito.
- Não pretendo ficar. Quero seguir pela selva até ao Pico dos Três Vértices e encontrar as mulheres do Milho Estoirado.
- As mulheres do alto não gostam de companhia – Retorquiu o velho.
- Nem eu. Procuro só uma delas. Sonhei com ela quando estava no outro lado. Tem uma carinha linda e olhos grandes e azuis. Além disso pula e dança. Eu chamo-lhe Cintilante Luz Que Brilha Sem Cessar Na Única Pupila do Meu Olhar.
- É um nome um bocado grande – Disse o velho, jocoso.
- É uma grande mulher – Retorquiu o zarolho.
- E se ela não sonhou contigo? – Perguntou o velho.
- Bem, nesse caso volto para junto de vocês e mais dia, menos dia quando a maré estiver cheia deito-me na rocha em vez de me sentar.
A fogueira estava a apagar-se e o ancião levou o visitante a um recanto de pedra e convidou-o a repousar. O zarolho fechou o olho e adormeceu. O velhote esgueirou-se para o seu canto da caverna e fez vibrar uma rabeca enquanto entoava uma frase vezes sem conta.

sábado, 22 de novembro de 2008

Theme song to Fantasy Island

este sonzinho fica aqui até eu decidir o que fazer ao zarolho (lol). Redonda obrigado pelas tuas palavras e quando quiseres reentrar fá-lo.